Nunca o acaso pode ser traduzido como caminho da evolução humana, mas no caso dos tempos binários por muitas vezes parece que ele dá as cartas de maneira lisérgica e sem a presença de seu pai
Timothy Leary.
Obviamente a onda de tecnologia que tomou o mundo, ocasionou uma corrida de cem metros rasos abarrotada de atletas anabolizados, no quesito adaptação cotidiana.
Ergueu-se então uma cidade global formada por prédios de teclas e controles, ruas repletas em redes sociais e praças dos mais bonitos blogs com fotogramas que mostram desde a situação sexual dos seus proprietários, até as mais novas novidades do mercado semi morto fonográfico.
Temos uma aldeia de informações que tornou-se uma cidade quase calvina. Entretanto muito mais do que o crescimento desmedido da tecnológica, existem ramificações da psicologia humana que não se alteraram mesmo com a presença constante da iluminura internética.
Entre eles a paranóia, o medo e o reacionarismo.
E esses três pilares estão aos poucos matando a sociedade como a conhecemos. Não se engane, vivemos em um tempo que de tão perigoso para a sociedade, deveria ser tratado como estado de alerta máximo. O ser humano emburrece na mesma medida que a velocidade da tecnologia cresce. Isso não é apenas uma previsão do futuro, está acontecendo no mesmo segundo em que digito essas linhas.
Quando
Italo Calvino escreveu
As Cidades Invisíveis talvez não imaginasse o quanto elas fariam parte da natureza humana. Na descrição das 55 localidades geográficas por
Marco Polo ao soberano
Kublai Khan, uma das temáticas escolhidas é a da cidade e os mortos. Uma dessas dissertações imaginárias do livro é quase tão exata quanto relógio.
O capítulo 3 desse tópico descreve
Eusápia, um local onde a população preocupava-se com o aproveitar a vida, já que o lugar era o ápice na época. Para evitarem aflições com a evolução humana e consequentemente a morte, a população construiu uma cópia exata da cidade no subsolo. Essa réplica continha os cadáveres dissecados com o esqueleto recoberto por uma pele amarela, mantidos na mesma posição que faziam suas atividades na cidade dos vivos.
Quem fazia a transição de uma cidade para a outra era a
Confraria dos Encapuzados. Ninguém da população sabia o que acontecia na cidadela dos mortos e as notícias eram dadas apenas por intermédio destes senhores da informação.
De um lado
Italo, do outro a era da informação rápida e a USP.
São Paulsápia, a metrópole latino americana, quarta cidade do mundo e ápice da civilização brasileira é dividida em duas partes distintas.
A primeira na superfície, onde os viventes tentam irremediavelmente manter seu meio de vida sem preocupações e longe das aflições do mundo. Mesmo porque a cultura da novidade cultural, econômica e social acontecer aqui primeiro, ainda é o vergalhão máximo de centenas de movimentos nazi nacionalistas da cidade.
A
Eusampa já tentou inúmeras vezes montar palanques baseados na aversão aos migrantes nordestinos e outros que formam mais da metade dos viventes. Muito se falou e pouco se conseguiu, então construiu-se uma outra cidade no subsolo da sociedade vivente. A localidade onde os cadáveres sociais vivem, um lugar onde tudo o que é considerado morto para essa parte da população paulistana pode morar. Sejam migrantes, gays, maconheiros, craqueiros ou estudantes.
As informações entre esses dois mundos são apenas transportadas pelos homens de capuzes redatórios.
Um aglomerado midiático que divulga as coisas sem a profundidade necessária para que os viventes possam decidir se querem passar para a cidade dos mortos ou como querem passar para o outro lado. Os homens e seus capuzes recobertos de impunidade da soberba, mostram aquilo que querem. Dos mortos sabe-se apenas o que é liberado e mais nada.
Não se conhece as falcatruas dos reitores, o descaso do governo quanto ao mundo dos mortos e como
Kassab,
Alckmin e seus comparsas que ejaculam milicos das antigas na
Polícia usam uma Universidade como latrina operacional e deixam os mendigos e doentes de crack na Rua Helvétia morrerem sem amparo.