
Sexta feira dia 27 de novembro de 2009.
O tempo na cidade de São Paulo durante todos os microsegundos passados em ritmo de valsa alemã, mostravam que toda a acidez daquele calor que emanava por entre o concreto e transpassava como lâmina cortante por entre os corpos das pessoas que andavam desavisadas, era apenas um sinal de que uma pequena batalha celestial estava prestes à acontecer.........
Iniciamente o campo de batalha estava preenchido apenas do lado e fora. O portão aonde aconteceria a guerra pelas almas abriria apenas as 16:00, mas já se podia perceber toda a fúria em acalanto dos guerreiros repousando em seus elmos pontiagudos e suas proteções contra a chuva ácida que se encaminhava através das nuvens cada vez mais cinzas.........
Em uma mesa, a milhas de distância da arena, sentados e conversando sobre as melhores táticas de guerra, quatro cavaleiros se preparavam mentalmente para a batalha que haveria de consumir toda a energia reservada durante a semana. Um silêncio ensurdecedor por muitas vezes deixava-os em estado de concentração alfa muito maior do que se podia pedir para os exércitos chineses nos tempos de samurais hatorianos. Em em suas cabeças apenas a certeza de que se é necessário a proteção divina durante o banho de sangue que uma épica jornada prescreve, ele seria feito por entre litros e litros de água que estava prestes a despencar do céu.
Um trovão reluzente marcado por um grito gutural de tribo mostrava aos cavaleiros que os portões haviam sido abertos. Nesse momento palavras não existem ou teimam em não aparecer, por isso, os entrecantos foram revelados pelos olhares ansiosos e temerosos dos quatro.
Com toda as armaduras em riste e prontos, eles deram os primeiros passos em direção à arena. O que demoraria algumas léguas de tempo devido à presença de inúmeros monstros de quatro rodas que aglomeravam-se por entre as trilhas traçadas no plano de ataque pelos cavaleiros, que nesse momento por alguns segundos conseguiram entender que a batalha começara já desde as primeiras horas do dia, mas os soldados vestidos de preto que caminhavam por entre as ruas da cidade não conseguiram ver.........
O clima foi o campo de disputa dessa primeira batalha. De um lado o calor infernal tomava conta dos seres humanos e das almas. Era como se as portas do inferno dantesco se abrissem e liberassem ordas de anjos vermelhos com asas flamejantes que durante vôos rasantes despejavam quilos e quilos de lava em cima das cabeças dos seres humanos, mostrando que sim hell ain´t a bad place. E nos momentos em que o calor se tornava arrebatador, águas celestiais eram despejadas com fúria pelos céus. Sim Deus e o Diabo já começavam a mover seus peões........
Em uma das ondas de água despejadas, os quatro cavaleiros andavam com força determinante em direção das vozes que já eram ouvidas pelos quatro cantos daquela região em estado de guerra. Calmos e observadores percebiam que nenhuma daquelas almas que andavam em direção de seu destino que seria escrito através de sons estavam preparadas para a violência dessa guerra. Mas mesmo assim não era a missão deles alertar os peões, a batalha era a única coisa que interessava.
A chuva havia passado e a noite negra parecia ter abduzido todas as camadas de luz possíveis dentro das ruas. O Diabo estava movimentando suas peças mais uma vez, e agora a cegueira seria a arma usada. Os quatro já percebiam que os soldados estavam se aglomerando e entrando na arena, e o número deles aumentava a cada metro percorrido. Ordas humanas armadas de latas de cerveja, baseados e chapéus com luzes piscantes mostravam que os exércitos estavam sim com uma vontade gladiadora de guerra e assim a sensação de que a batalha sangrenta e final estaria se aproximando se mostrou cada vez mais palpável e presente.
No lado de fora da arena os soldados eram dispostos em filas que cada vez mais iam diminuindo de tamanho como em um vaso de sangue que se transforma de artéria em capilar em fração de centímetros. Na porta de entrada seguranças, que por segundos conferiam se todo o aparato dos guerreiros estavam em ordem. O gosto de sangue de batalhas épicas já era possível de ser sentido dentro de todas as narinas..........
Quando os quatro cavaleiros estavam seguindo em direção à rampa de entrada uma imagem grudou em cada retina e provavelmente vai assombrar a cabeças deles por toda a eternidade. Um mar de luzes reluzentes e piscantes em forma de chifres tomavam conta de toda a arena. A dúvida se o Diabo estava já ganhando esse jogo de tabuleiro permanecia no ar. Mas como todo soldado embuído de sua missão os quatro continuavam a descida. A visão deles era algo parecido com isso:
Assombrados tomaram seus lugares no campo de batalha.Um gosto amargo seguido de pulsações fortes das artérias centrais e coronarianas mostravam o peito de todos soldados eram feitos de pele retrátil. Em cada rosto uma marca de alegria e ansiedade marcavam os minutos de espera. Um dos cavaleiros olha para o lado superior esquerdo e em uma das torres que marcavam o território da luta e consegue ver Deus que fazia um sinal para que seus exércitos começassem à atacar. Algumas gotas de chuva santa saltavam por entre os corpos. Do outro lado, Lúcifer iniciava seus movimentos violentos desse jeito:
Os quatro cavaleiros foram jogados para cima em um movimento humano cíclico. A cada salto uma lâmina formada por seis cordas bradava emissões sonoras que pareciam cortar cada pedaço da atmosfera com uma velocidade e força digna de seres mitológicos. Um trem desgovernado que não seria capaz de ser seguro muito menos contido em toda a sua força. A luta já havia começado e por entre as três primeiras músicas dessa guerra o que se viu foi nada mais ou menos que almas sendo entregues de maneira coletiva. Os soldados sentiam cada som como se fosse o último. Começava a se formar uma onda de pessoas que despejaria energia longe dos limites geográficos da arena. Os coros o sons hipnóticos e coletivos eram ouvidos ao longe, e os seres humanos que não participaram dessa batalha do dia 27 apenas podiam imaginar o que se passava dentro da arena.
Os quatro generais que comandavam as ações no campo de batalha pareciam trabalhar para os dois lados do confronto. E isso foi uma coisa que chamou atenção dos quatro cavaleiros. A cada sucessão de notas e batidas infernais, uma outra quantidade de carisma era despejado em cima das pessoas. Com uma demolidora linha de frente onde o general Angus se destacava mostrando que todos os anos de batalha não o deixaram enfraquecido. Tamanha foi a quantidade de quilômetros que ele andou no palco. Não parava um minuto com sua dança desconexa de guerra. Suas pernas regiam todos os soldados em movimentos e mesmo quando seu discurso na guitarra se tornou extenso, a onda humana estava completamente em transe profundo. Não havia mais volta e a energia explodia a cada grito da platéia. E nesse momento Deus e o Diabo se amalgamaram em uma só nota.........
Durante duas horas o que se viu dentro daquela arena foi algo que apenas pode ser visto em terras estrangeiras. Catarse pura e violenta, que seria muito mais facilmente ilustrada se você fosse amarrado na ponta de uma avião Concorde e viajasse do lado de fora sentindo toda a velocidade da aeronave passar pela sua pele. O que se podia ouvir era um coro em uníssono formado por quase 70.000 soldados sedentos por notas cada vez mais altas. Na guerra pelas almas, apenas um só coro de vozes. Muitas vezes mais alto que a própria voz de Brian Johnson, que ao se pendurar na corda do sino do inferno pode apreciar toda a onda humana de vozes que cobria o Morumbi.........
Um tapete de gente que cobria todo o chão e não deixava espaço para que o ar escapasse.
Um tapete de gente que cobria todo o chão e não deixava espaço para que o ar escapasse.
Os estrondosos canhões que marcaram o final da batalha, saudaram todos os soldados que durante um par de horas magistralmente mágicas trocaram a alma com os quatro generais do apocalipse. A sensação que se tinha é que mais do que uma guerra, havia acontecido um ritual de magia em que um coletivo consciente foi colocado em hipnose de massa. Restando apenas sorrisos alargados pela sensação de que todos presentes ali tinham visto uma das melhores apresentações do ano, se não a melhor. Ao final com fogos de artifício e durante a incrível calmaria da saída da arena a impressão que se tinha não era de que ninguém havia perdido a sua alma, e sim elas estavam lavadas e abençoadas.
Nesse instante um dos quatro cavaleiros volta a observar as torres e as figuras de Deus e o Diabo parecem sorrir do mesmo modo, e seus corpos vão se fundindo um receptáculo humano só. É aí que Deus mostra a sua verdadeira face e ela é de Andy Kaufman. Que sorri e acende um cigarro. Sabe lá no fundo que por entre as vozes e o suor deixado no campo de batalha a vitória foi mais uma vez da alegria de se poder viver momentos como esse:
Nesse instante um dos quatro cavaleiros volta a observar as torres e as figuras de Deus e o Diabo parecem sorrir do mesmo modo, e seus corpos vão se fundindo um receptáculo humano só. É aí que Deus mostra a sua verdadeira face e ela é de Andy Kaufman. Que sorri e acende um cigarro. Sabe lá no fundo que por entre as vozes e o suor deixado no campo de batalha a vitória foi mais uma vez da alegria de se poder viver momentos como esse:
E esse foi o set list da batalha:
Rock N' Roll Train
Hell Ain't a Bad Place to Be
Back in Black
Big Jack
Dirty Deeds Done Dirt Cheap
Shot Down in Flames
Thunderstruck
Black Ice
The Jack
Hells Bells
Shoot to Thrill
War Machine
Dog Eat Dog
You Shook Me All Night Long
T.N.T.
Whole Lotta Rosie
Let There Be Rock
Bis:
Highway to Hell
For Those About to Rock (We Salute You)
Um amigo meu que estava no show reclamou que o show de 1996 foi melhor. Passei o fim de semana pensando nisso, e minha resposta é:
FODA-SE 1996!!!!!!!
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