
Meu tão odiado aniversário vem chegando. Não comemoro por questões psicossomáticas, encefálicas e por falta total de vontade. Ninguém me acha, desligo celular, não atendo campainha não digo para ninguém a data certa. Enfim não gosto.........
Mas hoje depois de tomar uma decisão importante (de o ano que vem estar em junho em Glastonbury), resolvi dar me uma vez na vida um presente de aniversário. Apenas para variar um pouco. Se eu fosse levar ao pé da letra as coisas não deveria, mas nunca fiz isso na vida então foda-se..........
Mas eis que nada do que eu penso tem apenas dois lados. Existem sempre entrecantos calamitosos à espreita de tudo. Nada é apenas uma passagem e sim a toca do coelho, e por isso sempre que eu posso tomo pelas rédeas o chapeleiro maluco e faço dele o condutor ideal dentro de idéias bakunianamente colocadas em um sistema penfieldiano completo e funcional.........
Por isso que eu não poderia deixar passar o que aconteceu na loja da Fenac na tarde de ontem.
Quem acompanha esse blog já leu durante as semanas que se passaram todo o relato do show fechado do Franz Ferdinand aqui em São Paulo. E quem conseguiu acompanhar as notas percebeu duas coisas pleonásmicas:
a) Eram muitos pontos de venda, incluindo cidades do interior de São Paulo, outros estados totalizando mais de vinte lugares espalhados pelo Brasil. Primeira pergunta:
Se o show é fechado com apenas 500 ingressos abertos para o público, porque raios montar um esquema como se fosse um festival para milhares de pessoas. A resposta mais óbvia é que todos tem o direito de vislumbrar a possibilidade de comprar o ingresso. Tá bom então Marx, mas me diz então outra coisa, você acha mesmo que com apenas essa quantia de ingressos a coisa tem esse aspecto democrático todo??????
b) Outra coisa, quem é que organiza essa distribuição de ingressos??????
A empresa da vôdega que está trazendo os caras????
A Ingresso Rápido?????
A Fenac é responsável apenas pela venda ou tem participação na logística da coisa toda????
Seja quem for uma coisa é certa, não existe preocupação nenhuma com quem compra o ingresso e provavelmente o que interessa além da óbvia margem de lucros das pessoas interessadas é mais nada.......homem primata o resto você já sabe.
Durante as 3 horas em que passei na loja eu ouvi as histórias de todas as cinquentas pessoas que estavam no mesmo barco tipo Crying Lightning nessa tarde. Pessoas que se conhecem em um mesmo lugar tem a tendência a acabarem conversando das mesmas coisas. E assim foi, falando dos shows, dos gastos e principalmente da má organização. Aliás isso é incrivelmente um ponto passivo, o quanto mal feitos são esquemas de shows nessas terras outrora estupradas pelos portugueses. O povo de uma maneira geral ainda sofre um sistema de escravidão com esses ditos empresários de shows. Seja pelos lugares escolhidos, a logística de entrada e saída ou os cambistas. Mas todo mundo tem uma história perrenguenta para contar.
Mas nem só de ranzinisse vive uma fila de ingressos. Existem histórias até comoventes. Como por exemplo à de um cara que estava lá porque ia comemorar o aniversário de um ano de namoro no dia do show e durante o jantar iria presentear a namorada com o ingresso do FF, já que a menina é fanáticassa pela banda. Outros mais intensos estavam lá perigando perder o emprego ou tomar a enésima bronca dos chefe, mas não importava. A música como sempre é mais importante, o poder de poder ouvir aquele acorde de guitarra que te faz sair do centro de gravidade não é coisa que se compare com nada. Uma levada de bateria que se transforma em onda gigante e explode dentro do local mais interno do teu cérebro, disparando metralhadoras giratórias de cores vivas é uma das sensações que mais se aproximam celestialmente daquilo que se convém chamar de perfeição. E quem gosta de música sabe que um acorde apenas pode tornar seu dia muito mais feliz do que qualquer anti depressivo que se tem notícia, e como já dizia um baixista a música é a mais importante arte curativa do mundo........
Mas quem organiza esse tipo de evento não gosta de música, gosta de dinheiro. E como todo porco capitalista não está nem aí para o ser humano que está lá suando de aflição na fila, nem para as meninas nervosas comendo as pontas dos dedos esperando a atualização do sistema.
Dez minutos para as quatro da tarde e uma fila toda composta de senhas numeradas e bem organizada pelos atendentes estava pronta. E aí cabe um porém:
Você já se deu conta de que tirando algumas raras exceções, as pessoas mais simples são sempre as mais educadas??????
Em um mundo ondea qualidade citada foi deixada na porta de fora de quase todas as casas, é prazeiroso ver as meninas que trabalham no quichê da empresa que vende os ingressos fazerem das tripas o coração para poder além de conter a ansiedade de muitos, ainda por cima serem sempre solícitas em tudo o que era possível e muitas vezes literalmente tirarem coelhos de cartolas ocas......
Todas as pessoas que estavam na fila sabiam que não haveria ingressos para todo mundo, que em algum momento as meias entradas acabariam e logo em seguida as inteiras tomariam o mesmo caminho, mas quem gosta de música de verdade não arredava o pé, afinal de contas é passional e pessoal demais gostar disso. Não tem lógica no mundo que explique esse fato, e isso é o aspecto mais que sensacional de tudo.......
Mesmo com toda essa sapiência todo mundo estava lá calmo e sem muito stress, mas ninguém estava preparado era para o lado B dessa tarde. Com a fila caminhando ficava evidente algumas coisas:
Primeiro e mais importante, em um evento fechado como esse não se pode deixar a venda dos ingressos por pessoas ultrapassar dois. Pelo simples fato de que moramos no país do Gérson e ele leva vantagem em tudo. As pessoas estão sempre querendo uma maneira de tirar proveito de situações como essa, o que ficou comprovado com a presença de pelo menos um cambista na fila. Ingresso caro, compra-se a quantidade maior para depois vender na porta do evento. Todo mundo já viu isso antes e conhece bem como essa história acaba e dessa vez não foi diferente..........
Senha 1,2,3,4,5,6,7 entraram na fila quase que ao mesmo tempo compraram suas meias entradas e sairam rápido. mais uma vez ficou comprovado que quem chega primeiro chega bem. 8,910,11,12,13,14 tudo em ordem também. Na minha frente 15. A senha que me lembra o número do time da cidade aonde nasci espera atentamente no quichê, quando de repente vem a notícia de que as meias entradas acabaram depois que o 15 comprou oito entradas. Leve desespero na fila, mas ninguém arredava o pé.........
No número 16, a menina do quichê revela que naquele momento aonde o sistema estava atualizando outra vez, os ingressos acabaram. O cara do aniversário de namoro quase infarta, uma menina entra em desespero silencioso. Risos amarelos e piadinhas sem graça, alguém arrisca um puta que paréu.........
Mas 15 estava cada vez mais calmo e nesse momento aonde 16 tinha um certo ar de decepção em seu rosto a vendedora solta a seguinte frase:
" Olha 15, tem um ingresso que não imprimiu, vou ter que reiniciar e ver se imprime, se não acabou mesmo."
Nesse mesmo minuto ela sentencia que acabou, mas por um desses milagres que apenas é explicado pelo Padre Quevedo, a menina do caixa diz que ainda resta um. Então é aí que a trama se complica.
15 e 16 se olham, por alguns segundos parece que uma aura de verdade invade a carapaça estranha de um deles e solta a frase: " Olha meu, é o seguinte. Vou te dizer a verdade, eu não vou no show, estou comprando os ingressos para revender na porta........por isso se sobrar mesmo esse ingresso pega pra você".
Percebendo o espanto do outro, ele continua:
"Quer dizer, não sou eu é meu chefe......."
Um minuto Watson, quer dizer que agora existe empresa de cambistas??????
Com direito a hierarquia e tudo mais?????
Você cresce na empresa vendendo ingresssos na porta do evento, tirando dinheiro do pessoal que por acaso tem o mesmo direito de comprar antecipado o convite que você está, protegidamente pela lei usurpando????? É isso????
Então vamos aos fatos. A lei protege quem rouba o direito do cara presentear a namorada, afinal de contas se o tal empregado do cambista não estivesse na fila seriam oito ingressos a mais e provavelmente a menina nervosa e o cara comprariam traquilamente. Pode até ser , mas faltaria ingressos depois.
Até faltaria, mas o direito de tentar comprar o ingresso é seu e intransferível, você comprando meia ou inteira. Então na verdade o cara que entra em uma fila e tira um direito que é seu, está indo contra a liberdade pregada na constituição, ou seja está indo contra a lei. Logicamente comete um delito, mas quem é que vai prender o cara?????
Serão os organizadores de um evento feito nesses moldes, com um furo organizacional tão grande quanto todos esses citados acima os paladinos que proibirão que safados como o número 15 façam o que bem entendam?????
Provavelmente eles estarão ocupados demais contando o seu dinheiro e o meu também.
Não espere que a lei mude, ou pessoas. Porque os cambistas são uma invenção genuinamente brasileira. Então pelos direitos de copyright eles não podem acabar sem recisão contratual, o que pesará no bolso dos escroques capitalistas..........
Mais uma vez fica provado que você, querido leitor do baixo Augusta não passa de massa de manobra. Estatística de comprovação de que os eventos hypados desses empresários de shows "muderninhos" são um sucesso. Os cambistas e seus chefes agradecem, quanto mais pessoas sem ingresso mais a empresa cresce a olhos vistos.......mas deixe estar nós vamos piratear (desculpa aí politicamente correto) esse show direitinho!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!