sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

GD 28......... ALMAS MEDIEVAIS

Nos tempos onde os cavaleiros empunhavam espadas pesadíssimas e corriam em lutas eclesiásticas em defesa de santos graais e donzelas perdidas em cavernas soturnas, Joanna Newsom definitivamente seria uma trilha sonora mais do que necessária.
Em duas horas de sonoridades que catapultam sua mente por entre densas florestas e fontes de água límpida, a compositora, pianista, cantora e harpista deixa claro uma coisa: esse é um trabalho preciso.
Mas como entender essa precisão se dentro do disco encontramos músicas com mais de dez minutos (apenas duas músicas tem menos de quatro minutos), cheias de pianos, violões e violas acrescidas de clarinetes, saxofones e violinos.
Essa confusão instrumental apenas aparece no momento em que descrevemos todos os instrumentos usados. As notas são matematicamente encaixadas, como se as forças de uma física quântica quadriculada pudessem desenhar temas onde nada mais interessa a não ser a beleza matematicamente encaixada.
A formação de Joanna provavelmente tem muito a ver com a maneira que o disco HAVE ONE ON ME foi feito e lançado essa semana mundialmente pela internet. Formada em composição e escrita criativa pelo Mills College em Oakland, toda a teoria foi colocada em prática aqui. Conseguir uma cópia definitivamente saciou a curiosidade de quem em janeiro de 2010 entrou no site da gravadora Drag City e achou aquele link indecifrável que levava ao nome do disco.

E uma coisa que já chama a atenção. É que definitivamente não se pode resenhar esse disco como todos os outros. Não é possível fazer um faixa à faixa, pelo simples fato de que as músicas descrevem uma grande circulação sanguínea. Impossível retirar uma artéria e observar as nuances de cada célula do vaso sem danificar o resto do corpo. O disco tem que ser ouvido em sua totalidade e na ordem em que as músicas estão. Porque dentro de seu cérebro é como se seu peito fosse uma terra sem folhagens e com terra seca, mas a medida que todas as notas vão se formando seu corpo vai sendo arado e polinizado através de insetos que disparam de dentro da boca de Joanna. São como inúmeras rajadas de vento anemofilando seu coração e as raízes cravam tentáculos em cada espaço em branco de sua alma. Não existe escapatória e a hipnose coletiva se desfaz em segundos para alguns acordes depois iniciar uma nova jornada dentro de seu líquor.

Desde os primeiros acordes de EASY, a música que abre o disco já é possivel saber que seu coração vai velejar por pradarias celtas. A voz de Joanna começa em tons suaves e calmos, como se ela tivesse ensaiado durante séculos uma cantiga de desalento regada por sorrisos. Cravos e violas acompanhados de nervosas sinapses de harpa formam uma onda dentro de um lago onde valquírias descansam. Suave também é a referência da música japonesa dentro dessa canção. Nesse instante você acaba de abrir uma caixinha de músca onde os anjos rodopiam ao redor de ninfas semi nuas. Começa a hipnose...........
Isso segue dentro da próxima canção HAVE ONE ON ME e a terceira '81. A primeira um pouco mais agitada com a adição de percussões simples e um toque de jazz que segue uma linha medieval. Se em Easy o pêndulo começa a levar você para um estado alfa, com a canção título você já está em um campo de batalha cercado de armaduras dançantes ao redor de uma fogueira. Joana D'Arc provavelmente dormia ouvindo essa canção. São onze minutos de onde os cavalos são domados em uma fumaça calamitosa.








HAVE ONE ON ME


'81 parece fechar essa tríade, mesmo porque tem a mesma linha da canção inicial. Depois das batalhas embebidas em jazz suave, a calmaria volta a reinar e os sons que saem da harpa de Joanna são nada menos que divinos. Não espere nada que não sejam nuvens em cores calmas, pois você vai se decepcionar se quiser tempestade. Joanna convida você para encontra-la dentro de um jardim e se assim for escolhido as estradas se abrirão rodeadas de girassóis insanos e brilhantes. A caixinha de música lentamente se fecha ao final dos acordes e você sabe que está em outro lugar, longe da fumaça e cercado de vegetação lisérgica...........

Have One On Me é um disco de ciclos, que são determinados por portas translúcidas. A cada abertura de porta/ciclo novas sonoridades se abrem. Sejam elas condicionadas em sonhos dançantes como em GOOD INTENTIONS PAVING COMPANY que nitidamente é inspirada em algum salão medieval cheio de casais em círculos, ou em canções de ninar paranoicamente nervosas e cheias de caleidoscópios sonoros como em NO PROVANENCE.








GOOD INTENTIONS PAVING COMPANY


Com uma proposta completamente diferente do que a maioria das bandas da atualidade que muitas vezes só fazem reciclar tudo o que já se ouviu um dia em uma guitarra, Newsom traz combinações no mínimo diferentes. BABY BIRCH, por exemlo é uma cantiga de nove minutos que passam com tamanha beleza que parece ter tempo indeterminado. Não existe definição no mundo pop atual para as navalhas pacíficas que cortam seu ventrículo esquerdo a cada entonação feita pela cantora.Guitarras escondidas dentro de ilusões de pop,muitas vezes estranhas mas por todas as vezes, lindas.........
O disco é triplo, outra característica que beira a loucura nesses dias de twitter. Wayne Coyne era o detentor do prêmio insanidade por ter feito Embryonic duplo, mas Joanna avançou os limites.
E mesmo assim o disco não é longo demais e os minutos são uma sensação completamente diferente do que sua alma já se acostumou. Nenhuma nota é colocada de graça, muito menos deixará uma sensação de vazio dentro do seu endoesqueleto. YOU AND ME,BESS é a prova disso tudo. Novamente com um fundo jazzístico de triturar o mais empedrado coração, essa canção é a mais bela do disco. São sete minutos e doze segundos onde seu coração vai dissipar qualquer lágrima a cada nota onde os metais constroem uma escala que se encaixa perfeitamente com a voz. Se o amor pudesse ser colocado dentro de uma partitura teria o formato dessa música. Liquefação de aperto no peito com direito a seres luminescentes de sorrisos largos........








YOU AND ME,BESS


E belo é um termo recorrente dentro desse disco. Canções como SOFT AS CHALK, GO LONG ou IN CALIFORNIA são parte de um caminho onde essa palavra é pleonasmo. E essa última canção leva consigo desesperos claros com amontoados de trovões, muito pela capacidade de composição em forma de onda que vai se abrindo em pétalas e quebrando suavemente nervosa em qualquer beira de estrada de tijolos amarelos, que Joanna possui.
Have One On Me não é um disco para iniciados ou para quem procura diversão rápida. Não existe uma revolta juvenil, muito menos três acordes malabarísticos. Esse disco foi feito em uma era onde o computador manda e desmanda. Um tempo em que as coisas acontecem rapidamente e muitas vezes sem a menor preocupação com os sentimentos humanos. Mas a audição dele é para ser feita em tempos onde as tavernas eram os locais mais bacanas para se viver. Ouvir KINGFISHER é se teletransportar para uma época onde as velas marcavam os rostos e as sombras dançavam por entre as poções mágicas de Merlin. Lagos mágicos onde fadas tramavam suas investidas sobre os humanos desprotegidos de coração. Expor seu peito por essas notas é completamente passível de não ser mais o mesmo ao final da audição.








KINGFISCHER


Joanna Newsom não quer ser a nova Kate Bush, apenas deseja que sua alma seja levada para um outro estado. Onde as levezas regadas a instrumentos de verdade definitivamente colocam seu coração onde ele deve estar, colado em casa partícula de sua alma.........





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