domingo, 30 de maio de 2010

GD 42 PEDAÇOS DE CARNE VIVA



Um dos episódios iniciais da série de tv produzida pelo canal Showtime (que também realiza Weeds) DEXTER, recebe o nome de Crocodilo. A cena que mais marca esse episódio é a qual o protagonista, interpretado por Micheal C. Hall, aparece apenas com os olhos fora da água e logo em seguida submerge exatamente igual ao réptil que dá nome ao episódio.
Quando vemos tratar-se de uma banheira e que seu corpo descansa pacificamente dentro do líquido inodoro, percebemos que estamos diante da fusão homem-animal mais latente dentro de toda a televisão. Acompanhamos a trajetória de um predador na essência da palavra. Mas a simplória interpretação que trata-se de um seriado sobre um assassino serial é apenas um arranhão na superfície. Como o corte inicial que Dexter faz em todas suas vítimias, é uma gota de sangue. Não existe profundidade nessa primeira análise do mesmo jeito que o corte não mata, apenas um borrão de idéia gotejado dentro de uma simples respiração não relevadora e amedrontada.

Mas o que faz com que o vício nessa série seja iniciado tem muito menos relação com a história e muito mais com que as cenas querem dizer sem imagens (ou em alguns casos com muitas).
Se Lost mostrava algumas facetas do ser humano e a busca pela redenção consigo mesmo, Dexter disseca todas as características humanas e as expõe do mesm
o jeito que os assassinos residentes em Miami jogam na cara dos investigadores do departamento de homicídios todos seus cadáveres. Não existem meias palavras é um corte seco e cirúrgico.

E tudo começa não exatamente com o protagonista. O elenco de apoio da série, que conta com Jennifer Carpenter, James Remar, Julie Benz, Eric King entre outros é a preparação exata para que você expectador saiba que vai assistir à uma exibição da alma humana que há tempos não se via.
Cada um dos personagens apresenta uma característca humana exacerbada. Perfeccionismo, ambição, raiva, honestidade, avareza, impotência. Independente da imagem, cada sentimento é mostrado quase como demarcado por marca texto brilhante. Todos são extremos na caracterização humana.
O que acaba criando um paradoxo perfeito com a história do nosso anti herói que não tem a capacidade de sentir. Enquanto todos lutam para esconder os extremos de sensações, Dexter luta para disfarçar a incapacidade de sentir alguma coisa. E não é por falta de tentar, afinal de contas durante o decorrer da série ele busca de várias maneiras. Mas sim porque ele como ser humano é vazio.

O melhor da série baseada nos livros de Jeff Lindsay, não é a excelente caracterização que o programa ganha a cada temporada, nem o fato de que é possível que uma série resolva todos seus mistérios no final, sem parecer chata. Muito menos o trabalho sensacional dos atores (especialmente Hall).
Na verdade o que mais atrai nas aventuras do perigoso predador forense, que a cada episódio parece mais e mais tomado pelo lado negro da força, são as constantes desconcertantes sensações que a série faz o expectador sentir.
Dexter subverte o fato de torcer para que o mocinho sempre ganhe, afinal de contas nosso herói é um assassino muito mais perigoso e frio que os bandidos que são caçados por ele. Aliás a cada cena de execução feita por Dexter é difícil não ficar apavorado com o personagem, mas apavorado no mal sentido da palavra.

Essa dualidade paradoxal de sentimentos em relação a nossa torcida já garante uma bela reflexão psicológica, mas ainda existe muito mais ossadas dentro desse armário. A mística distorcida dos quadrinhos também é uma das maravilhas do roteiro, pois se Clark Kent é a personificação e zombaria de todas as fraquezas humanas, Dexter é a encarnação fiel de todos os entrecantos calamitosos que possuimos. Um retrato fiel da incapacidade que temos de nos relacionarmos abertamente, de sermos verdadeiros em relação ao que somos e a talvez a característica mais marcante:
A que na maioria das vezes mentimos ao esconder algo sobre nós, aos outros e à nós mesmos.

Mas as discussões morais não param por aí e são disparado os melhores pedaços da série. A dualidade familiar entre um relacionamento de um pai que é a concepção de tudo o que um deveria ser para um filho (preparando e protegendo), mas na verdade canaliza muito mais um desejo de vingança. Harry Morgan é um Darth Vader que não precisava mostrar o lado negro para seu filho, mas a canalização apenas tornou esse sonho de fadas vingativo em novela de terror barroca, onde quando o cientista acorda de seus sonho e percebe que Frankeinstein está vivo não suporta viver para ver seu trabalho concluído. Muito mais do que perceber que Dexter era um ser sedento por sangue e gostava de matar, Harry tinha em seu filho a arma perfeita. Poderia então além de protege-lo para que ele não morresse executado como um criminoso comum, usar a psicopatia em favor da justiça.

E não é que nós seres humanos formados por carne e sangue não temos um que de Harry Morgan???

Esse tapa na cara da humanidade não é o único que a série oferece, e pelo visto muitos ainda estão por vir. Mas o que mais impressiona é a questão moral do que fazer se torcemos desesperadamente para que a assassino não seja pego e ainda pior, torcemos para que Dexter acabe matando pessoas inocentes (como no final da segunda temporada).
Mais do que as dissecações feitas pelo serial killer herói, o programa aponta o dedo na ferida social que temos em relação à lei. Afinal de contas quantas e quantas vezes já ouvimos todos em coro clamando por justiça, pena de morte e açoites explícitos em praças públicas para pessoas que cometeram crimes e sairam da cadeia quase ilesos.
Você acredita que se por acaso Ana Carolina Jatobá tivesse sido pega pela multidão que estava fora do Fórum ela teria sido acariciada????

Dexter esfola meticulosamente a vontade que o ser humano tem, mas esconde por não ser socialmente correto (do mesmo jeito que o personagem mente sobre tudo em sua vida), de fazer justiça com as próprias mãos. Alguém com poderes da mão direita de Deus, oferecendo seus serviços à humanidade. O dedo em riste na nossa cara mostrando que não somos diferentes de um assassino frio e calculista, apenas não temos as armas e o treinamento necessário, é uma coisa que incomoda. Mas ao mesmo tempo necessária, afinal de contas buscamos sempre nos adaptar, fazer com que o meio nos aceite a assim padrões de comportamento são criados para fazer com que todos se encaixem, assim sendo aceitos como iguais.
Mas e se por acaso o padrão usado fosse o de Dexter????

Essa pergunta é genial e o fato de que a luta do personagem por sentir algo encaixa perfeitamente na nosso própria incapacidade de decidir se queremos ser aceitos por aquilo que sentimos ou por aquilo que fomos treinados à fazer é outra das características épicas da série. Sentir e encaixar-se ou viver de acordo com seu código.....

Por tudo isso e muito mais que ainda veremos (a série foi renovada para uma quinta temporada), faz com que Dexter em alguns aspectos seja melhor do que Lost. Do ponto de vista da discussão social e psicológica a série bate a ilha de longe.
Mas na verdade acho que a melhor definição seria outra:

Lost é a melhor série desde Arquivo X que já foi feita, mas Dexter, Dexter é outra coisa.......

0 comentários:

Postar um comentário