
Se um dia por acaso você experimentar a sensação de não possuir mais ar dentro de seus pulmões, e sua respiração ficar presa por entre a quantidade cavalar de soluços seguidos de lágrimas, saiba que por alguns instantes a realidade se tornou muito mais palpável do que você realmente desejaria que ela fosse......
Durante trinta minutos após terminar de asssisti PRECIOUS, filme dirigido por Lee Daniels baseado na novela Push escrita por Shappire, minha respiração ainda não tinha voltado ao normal. Meus olhos marejavam e insistiam em não parar o escorrer de pesados pedaços de minha alma.
Talvez nem fosse pela soberba atuação de Mo´Nique, ou pelo roteio extremamente bem elaborado e de cortar os pulso escrito por Geofrey Fletcher, mas sim pela sensação de que o mundo tinha batido em minha cabeça.
Em muitos momentos é real a sensação de realidade claustrofóbica que seu coração experimenta, muito mais do que simples palavras faladas com uma capacidade de atuação fenomenal de todo o elenco (incluindo aí Mariah Carey e Lennt Kravitz). O que o filme nos coloca é uma experiência áspera e amarga, de como ser forte em um mundo onde não se tem mais nenhuma esperança. E isso é reconfortantemente assustador.
Claireece "Precious" Jones, é uma menina de 16 anos. Mora no Harlem americano de 1987, negra, obesa, estuprada pelo pai desde os 3 anos (que desse relacionamento de amor paterno doentio teve um filho com síndrome de Down e agora espera o segundo).
Tragédia?????
Uso de esteriótipos para comever a juventude rica e americana de que o umbigo é um pouco mais embaixo?????
Uso de uma caricatura para comoção internacional?????
No lançamento do filme o NEW YORK TIMES escreveu que Precious era um insultoaos pobres. Muito também pela crítica que o filme faz sobre pessoas que se encostam em auxílios do governo para manter um estilo de vida simbiótico vampiresco. Pede para esse jornalista vir pro Brasil......
Mas a reação do povo branco americano de classe média é a mesma da nossa classe média quando assistiu a Tropa De Elite. Filmes como esses dois não são películas, na verdade são pugilistas sedentos de vontade de acordar seu cérebro............
O filme é sim uma coleção de socos dentro do seu estômago que arrancam de dentro de você o último pedaço de humanidade possível de se ter. Durante a caminhada pelo mundo de Precious somos tentados a mais de uma vez levantar e sair da sala.
Não queremos ver, não queremos ouvir o som das coisas arremessadas em sua cabeça, não queremos olhar o suor escorrendo pelas tatuagens do pai peniano. Simplesmente queremos que tudo aquilo pare.
A urgência de salvação da personagem se torna real dentro de você. Durante o filme a vontade de querer sair de dentro desse palácio das impalações coronárias de qualquer maneira é cada vez mais palpável.
É possível sentir toda a dor que passa dentro do seu peito durante as cenas onde enxergamos um desmoronamento lento de um ser humano que está sendo reduzido à quase nada. A falta de expressão, a incapacidade de falar diante daquilo que o mundo lhe entrega. E o pacote é um amontoado sujo de palavrões e violência física e verbal.
E você quer descer desse trem. Quer que as imagens felizes de danças e musicais da Disney invadam a qualquer momento a tela. Com todas as forças de reza, você vai clamar que aquela menina com a expressão de pedra e que passa mais da metade do filme sem sorrir e dando ao mundo os espasmos de brutalidade que ela recebe, vire uma princesa com um vestido azul cercada de passarinhos, usando sua voz aveludada para encantar um príncipe.
Você sente dentro do seu peito uma ardência azeda que corre todo seu esôfago e deseja desesperadamente que que ela seja levada por uma legião de anjos, dentro de uma nuvem de aniz doce. E que seja colocada em íngreme subida ao mar de felicidade, ao som de James Brown. Mas não existe no mundo de hoje espaço para contos de fadas bregas.............
Seu estômago corrói, sua alma se sente apertada dentro de um cubo de ferro em brasas que acaba marcando a palavra vida dentro do seu peito. E nem ao menos você foi consultado se isso era viável ou não.
Mas como em qualquer filme de Tarantino a violência de Precious é bela.
Em uma das mais marcantes cenas desse filme, a mãe de nossa heroína em um rompante maternal começa a xingar de maneira aguda, após arremessar uma coroa de espinhos em forma de cinzeiro cabeça da menina.
Precious se levanta e segue com a mãe logo atrás a vociferar todas as comportas do inferno em cima dela. A cena é forte o suficiente para te fazer engasgar com as suas próprias lágrimas.
Mas Mo´Nique entoa os açoites como se estivesse cantando uma balada de R&B romântica. Nunca uma violenta fala foi tão sublime, nunca palavrões soaram tão doces e ao mesmo tempo de uma crueza capaz de rasgar seu peito, tirar teu coração do lugar e afoga-lo dentro de você de novo. Doi apenas isso, mas é de uma beleza sublime.
Dentro de um mundo que lhe oferece nada, o que sobra são apenas restos de sonhos que jamais aconteceram. Restos de uma vida pensada em condicional cerebral sem futuro perfeito. E mesmo dentro do peito apenas uma alma maltradada, sobram força e amor............
A intensidade muda que Gabourey Sididibe mostra na personagem, é como a de uma valquíria silenciosa. Esta é a beleza de Precious.
Uma espartana munida de lanças onde o silêncio corta mais do que qualquer ato, onde no lugar de lamúrias existe sim uma vontade imensa pela vida, mesmo que a vida tenha desistido. Ela jamais sucumbe durante todo filme, mas nem mesmo uma máquina de guerra como ela suporta tudo calada até o fim..........
Vivemos dentro de apartamentos separados por telas de plasma ou imensos HD que cegam. O tempo que não temos nunca é o suficiente para notarmos algo além do que nosso próprio umbigo. A violência de alma com pessoas que não atendem um padrão sunita de felicidade capitalista sempre foi muito mais pesado do que realmente se mostra nas novelas globais. E isso é de dor aguda, é de não achar esperança nem ao menos em uma única respiração.
A força que existe na vontade de viver é muito maior do que qualquer movimento de chicote contra suas costas. Mesmo sabendo que o amor não vai salvar seus pedaços de pele que se desprenderam pelo meio do caminho.
Mas o mais importante não é isso.
Quando se descobre a própria força, a vida passa de um lugar onde apenas existe amargura, violência e dor para um caminho que além de tudo isso existe um amor pela vida que esmaga qualquer possibilidade de se entregar.
Quando fecho os olhos para lembrar de Precious lembro que a amo com todo meu coração, porque como ela existem milhares de outras meninas que quando caminham por entre convenções impostas por uma sociedade podre smplesmente se tornam fortalezas cheias de vontade de viver.
E isso sim é uma coisa pela qual vale muito à pena amar..................

















