
1979 e 2010.
Dois tempos dividos por mudanças tecnológicas, dias e horas onde o ser humano se perdeu em meio à um turbilhão de emoções, ora vazias outras ocas de sentimentos. Guerras santas e pazes enfeitadas por cartas que viraram mensagens enviadas por Fedex, que se transformaram em e-mails que se moldaram em twitteres. O tempo entre essas duas épocas parece ser uma espaço tão separado como os continentes da América do Sul e da África. Mas do mesmo jeito que as imensas costas desses dois lugares, 1979 e 2010 guardam semelhanças de quebra cabeça muito mais profundas do que qualquer fenda geológica que atinja 8.8 graus em Ricther pode ter.
Existe uma característica humana que é a cola que uniu essas duas épocas tão distintas, em sonoridades amalgamadas. Essa peculiaridade dos seres bípedes com telencéfalo desenvolvido pode ser traduzida em apenas uma palavra de quatro letras: alma.
E é isso que essas duas bandas separadas por vários terabytes possuem em comum. Seus discos são o documento cabal e inabalável de que sim, sons possuem alma e coração do lado esquerdo de um peito cheio de respiração bruta.
Tudo começa com um referencial comum........
1966 na Inglaterra o movimento mod instalava suas roupas modernas e sua atitude cheia de som dentro dos jovens seguidores da rainha. Musicalmente falando os mods já flertavam com o que o Gorillaz e o The Specials ainda fazem. Misturar sons como o punk, o pop e o ska. Usar o moderno de cada época e misturar com o inusitado.
E usando esse movimento como referência (Damon Alburn, a mente pensante atrás dos cartunescos astros do Gorillaz nunca se cansa de dizer que Paul Weller ícone do movimento mod é sua maior inspiração), essas duas bandas deixaram documentos que mostram como a música pode atingir níveis gigantescos.
Mas ainda andando pelas terras antigas o ano de 1979, marca a época das primeiras audições de um desses documentos. THE SPECIALS, o disco de estréia da banda inglesa é uma experiência atemporal. A mistura do ska dos anos 60 com a energia do movimento punk dos 7o feita por eles, formaram a gênese de bandas como por exemplo o Sublime, Rancid ou até mesmo o The Police. Os ecos são tamanhos que a tsunami jamaica-britânica atingiu inclusive países longínguos como o Brasil (os Paralamas do Sucesso em seus primeiros discos soam exatamente como os Specials). E não foram só países atingidos, o próprio punk sofreu as consequencias dessa mistura. Uma prova é a canção CONCRETE JUNGLE. Sua introdução com a bateria tenebrosamente vulcânica onde as batidas são de bate estaca, é a origem do início de Do You Remember Rock And Roll Radio dos Ramones. Escute então as duas músicas gêmeas e também aproveite para entender o conceito de citação..........
A maioria das canções não eram da própria banda, como por exemplo TOO HOT uma música de 1966 gravado por Buster Prince ou o hit da banda A MESSAGE TO YOU, RUDY, que era uma canção de David Linvingstone no ano de 1967. Mas mesmo assim os Specials conseguiram através da junção de rebeldia punkeada de canções que refletiam toda a raiva que a juventude inglesa sentia pela selva de pedra britânica e o ska mais acelerado do que o original jamaicano, formar um norte magnético que era quase que caminho obrigatório para quem viesse depois.
A mistura de terninhos mod mais guitarras elétricas era uma coisa que já estava encravada na genética do rock inglês desde os tempos em que os Beatles cantavam no Cavern Club, mas juntar isso com uma octaedrocubana octanagem de ritmos e força motriz que cheirava a espírito adolescente deixaria marcas permanentes em todas as gerações a seguir.
A mistura de terninhos mod mais guitarras elétricas era uma coisa que já estava encravada na genética do rock inglês desde os tempos em que os Beatles cantavam no Cavern Club, mas juntar isso com uma octaedrocubana octanagem de ritmos e força motriz que cheirava a espírito adolescente deixaria marcas permanentes em todas as gerações a seguir.
A produção de Elvis Costello no disco The Specials deixou o som da banda com um pouco menos de barulho e muito mais suingue do que em suas primeiras gravações, o que pode-se ser mais percebido na remasterização feita em 2002. As guitarras soam mais pesadas e dão a noção exata de que se o disco fosse lançado independente da época, estaria relacionado dentro de qualquer lista dos melhores do ano. E mesmo com a produção deixando o disco bem palatável aos ouvidos, o cerne de todas as coisas ainda continua lá. E ainda mais atual do que uma infinidade de bandas que se dizem modernas. Músicas como DO THE DOG ou IT'S UP TO YOU são de uma urgência tão grande que parece que as cordas vocais de Terry Hall vão sair pelos ouvidos. A diversão regada com muita vontade de destruir muros e paredes de concreto, mas sem dispensar em momento algum um belo sorriso sem dentes e o balançar femoral dentro de qualquer pista de dança, seja ela de 1979, 2002 ou 2010. Esse disco não marca apenas a criação do gênero musical 2-tones, iniciado no momento em que o tecladista dos Specials, Jerry Dammers montou a gravadora 2Tones Records e onde o gênero cresceu. São litros e litros de alma e coração despejados dentro dos ouvidos de uma juventude que ainda hoje carece de figuras à seguir. Perdidos dentro de suas próprias incertezas, o som do The Specials e principalmente esse disco de estréia é fonte de luz em sabre jedai. Fortemente armado até os dentes com diversão, raiva e alma. Não apenas uma coleção de hits, mas sim uma fonte inesgotável de alquimia.
Essa é a primeira palavra que vem á sua cabeça quando os primeiros acordes de BROKEN (uma das músicas de Plastic Beach o novo disco do Gorillaz) se inicia. O ska dos Specials está todo lá, mesmo que parecendo ser tocado em rotações diferentes. Mas a letra sobre pessoas que se perdem não deixa sombra de dúvidas de que todo o espírito dos anos 70 rondam essa faixa.
Banda dita alternativa em vários círculos de discussão, o Gorillaz é fruto da rebeldia do vocalista Damon Albarn e seu amigo Jamie Hewllet. Em uma tarde onde os dois estavam assitindo o canal televisivo MTV, revoltados com todo o lixo exposto dentro das retinas eles resolveram inverter os valores. Já que as bandas em algum ponto da carreira viravam imagens cartunescas de si próprios por que não criar uma banda que já era um desenho. Não haveria transição para o mundo bizarro da animação, afinal de contas essa parte da anatomia do rock já havia sido feita.
Banda dita alternativa em vários círculos de discussão, o Gorillaz é fruto da rebeldia do vocalista Damon Albarn e seu amigo Jamie Hewllet. Em uma tarde onde os dois estavam assitindo o canal televisivo MTV, revoltados com todo o lixo exposto dentro das retinas eles resolveram inverter os valores. Já que as bandas em algum ponto da carreira viravam imagens cartunescas de si próprios por que não criar uma banda que já era um desenho. Não haveria transição para o mundo bizarro da animação, afinal de contas essa parte da anatomia do rock já havia sido feita.
E assim foi feito e nesse ano de 2010 inicia-se mais um capítulo regado nos mesmos moldes de 1979 ou para ser mais próximo com a tecnologia com a mesma energia de uma remasterização de 2002. PLASTIC BEACH com lançamento previsto para o dia 8 de março tem mais em comum com a mistura iniciada pelos Specials do que imagina nossa vã filosofia........
E o início disso é a maneira de composição de todas as músicas. Os gêneros se colidem e amalgamam-se formando um mosaico energético colorido com nuances fucsias. Cheias de frases que nos levam em uma máquina do tempo onde cenas de épocas vividas ou não passam por entre nossos ouvidos médios.
Seja o início do rap nos anos 80 com a canção WELCOME TO THE WORLD OF PLASTIC BEACH, que tem a a participação de Snoopy Dogg e o Hypnotic Brass Ensemble (um grupo de Chicago que toca instrumentos de sopro como trombones, trompetes e saxofones, que também já tocaram com Mos Def, outra participação no disco do Gorillaz na faixa STYLO). Ou um passeio pelas pistas de dança em um tempo onde a casa noturna Factory era o lugar para se estar na Inglaterra no terço final dos anos 80, na faixa PLASTIC BEACH que conta com a participação do seminal grupo de música eletrônica Front 242.
Como com os The Specials, os símios cartunescos mostram uma capacidade de entender o contexto do mundo em sua volta, não apenas observando os fatos e a sociedade, mas sim engolindo todas as informações e as solidificando em formas de massas sonoras cheias de energia. Unindo a rapidez de tempos onde os 140 caracteres ditam a velocidade com que se absorvem informações mais a capacidade que a alma tem de se intensificar a cada nota despejada. Essa união não é apenas interna, mas sim colocada em estado puro, e isso mostra mais uma vez outra ligação importante entre as duas bandas.
Quando em 1978 os Specials já rodavam suas metralhadoras giratórias jamaicanas pelas claves de sol, acontecia um movimento na Inglaterra que teve seu início dois anos antes, que chamava-se Rock Against Racism. O cerne de toda a questão estava cravado no nome do movimento, ou seja, bandas onde a mistura de raças era a mola propulsora da criatividade. E os Specials levavam a idéia como bíblia e sua estrutura anatômica mostrava isso.
Alquimia de cores........
Os Gorillaz com Plastic Beach elevaram isso à uma enésima potência infinita, juntando rappers, clubbers, roqueiros brancos dentro de apenas uma caldeira insandecida. Prova disso é a segunda faixa liberada pela banda SUPERFAST JELLYFISH, que conta com as participações do grupo de hip hop De La Soul mais o galês caucasiano e vocalista da banda Super Furry Animals, Gruff Rhys. Em tempos onde a intolerância teima em reinar em ações cotidianas duas bandas em tempos diferentes mostram que é necessário apenas notas e as diferenças são derrubadas.
E o início disso é a maneira de composição de todas as músicas. Os gêneros se colidem e amalgamam-se formando um mosaico energético colorido com nuances fucsias. Cheias de frases que nos levam em uma máquina do tempo onde cenas de épocas vividas ou não passam por entre nossos ouvidos médios.
Seja o início do rap nos anos 80 com a canção WELCOME TO THE WORLD OF PLASTIC BEACH, que tem a a participação de Snoopy Dogg e o Hypnotic Brass Ensemble (um grupo de Chicago que toca instrumentos de sopro como trombones, trompetes e saxofones, que também já tocaram com Mos Def, outra participação no disco do Gorillaz na faixa STYLO). Ou um passeio pelas pistas de dança em um tempo onde a casa noturna Factory era o lugar para se estar na Inglaterra no terço final dos anos 80, na faixa PLASTIC BEACH que conta com a participação do seminal grupo de música eletrônica Front 242.
Como com os The Specials, os símios cartunescos mostram uma capacidade de entender o contexto do mundo em sua volta, não apenas observando os fatos e a sociedade, mas sim engolindo todas as informações e as solidificando em formas de massas sonoras cheias de energia. Unindo a rapidez de tempos onde os 140 caracteres ditam a velocidade com que se absorvem informações mais a capacidade que a alma tem de se intensificar a cada nota despejada. Essa união não é apenas interna, mas sim colocada em estado puro, e isso mostra mais uma vez outra ligação importante entre as duas bandas.
Quando em 1978 os Specials já rodavam suas metralhadoras giratórias jamaicanas pelas claves de sol, acontecia um movimento na Inglaterra que teve seu início dois anos antes, que chamava-se Rock Against Racism. O cerne de toda a questão estava cravado no nome do movimento, ou seja, bandas onde a mistura de raças era a mola propulsora da criatividade. E os Specials levavam a idéia como bíblia e sua estrutura anatômica mostrava isso.
Alquimia de cores........
Os Gorillaz com Plastic Beach elevaram isso à uma enésima potência infinita, juntando rappers, clubbers, roqueiros brancos dentro de apenas uma caldeira insandecida. Prova disso é a segunda faixa liberada pela banda SUPERFAST JELLYFISH, que conta com as participações do grupo de hip hop De La Soul mais o galês caucasiano e vocalista da banda Super Furry Animals, Gruff Rhys. Em tempos onde a intolerância teima em reinar em ações cotidianas duas bandas em tempos diferentes mostram que é necessário apenas notas e as diferenças são derrubadas.
Mas não se engane, o novo disco do Gorillaz é feito em uma época diferente.
Onde parece não haver mais espaço para uma explosão de criatividade como nos tempos dos The Specials. Mas essas duas bandas tem algo de genial e foram capazes de fazer com que esses discos se encontrassem em linhas quânticas de realidades paralelas. E isso não está relacionado com toda a mistura de estilos, a rebeldia contra os tempos modernos ou muito menos com o passado mod.
Isso tem muito a ver com a capacidade que o ser humano tem de ser divinamente caçador de sensações que desprendam nossa vida dos entrecantos calamitosos. A mágica de em tempos tão diferentes e distantes conseguirmos povoar nossos corações e mentes com cores tão cheias de vida.
O prêmio que os Specials receberam essa semana da NME pela contribuição para o mundo da música foi uma tardia mostra de carinho, mas obrigatória. Talvez um dia os Gorillaz também o recebam por saberem continuar a alquimia das almas humanas.
Onde parece não haver mais espaço para uma explosão de criatividade como nos tempos dos The Specials. Mas essas duas bandas tem algo de genial e foram capazes de fazer com que esses discos se encontrassem em linhas quânticas de realidades paralelas. E isso não está relacionado com toda a mistura de estilos, a rebeldia contra os tempos modernos ou muito menos com o passado mod.
Isso tem muito a ver com a capacidade que o ser humano tem de ser divinamente caçador de sensações que desprendam nossa vida dos entrecantos calamitosos. A mágica de em tempos tão diferentes e distantes conseguirmos povoar nossos corações e mentes com cores tão cheias de vida.
O prêmio que os Specials receberam essa semana da NME pela contribuição para o mundo da música foi uma tardia mostra de carinho, mas obrigatória. Talvez um dia os Gorillaz também o recebam por saberem continuar a alquimia das almas humanas.

























