
Um dos meus grandes heróis do mundo real, Lester Bangs, além das teorias verborrágicas cínicas, costumava dizer que o mundo do rock é um lugar onde as eras sempre acabam plagiando umas às outras. Propositalmente ou não, mas todas acabam fazendo isso. E nesses últimos tempos essa idéia começou a me parecer menos um flash delirium e mais uma coisa concreta. Na verdade vivemos sobre o signo do plágio. Não há nada mais tão original assim no mundo da música. Talvez se escrevêssemos sobre tecnologia nanônica poderíamos discorrer por vinte páginas sobre os avanços na cura do câncer de pele na população, usando o advento das fibras de neonlíthium encontradas no mais novo mineral localizado em uma das praias intocadas do litoral de Ubatuba...........
Mas não vivemos nesse mundo. Não escrevemos sobre esse mundo onde as luzes em leds cintilantes brilham e explodem em inovações, escrevemos sobre música..........
Terreno habitado desde a era dos dinossauros, por outros seres que foram mais originais, capacitados, mais descolados, loucos e profetas. Um lugar onde tudo é copiado, mastigado e regurgitado diretamente nas nossas bocas famintas de novos corpos de qualquer estrela do rock, para que possamos fagocitar suas veias e salvar nossa sede de significância de vida, pelo sangue de alguma estrela do rock decadente qualquer.
Não existe nada mais clichê que isso, não existe mais muito espaço para o originalidade. As músicas são um plágio de outras melhores que foram plágio de outras piores. As críticas de rock são um plágio, todas estão espalhadas em milhares de frases de efeito que são jogadas durante o dia inteiro, sejam elas copiadas de letras de música ou de outros textos. Críticos são um plágio sem fim, você é um plágio e eu também sou, afinal de contas estou usando um texto para basear toda uma resenha de disco. Acostume-se, você vive em um tempo onde o consumo rápído e desenfreado cria deuses de cera que duram apenas o tempo de exposição aos primeiros raios solares, e mais nada.
Por isso não é de se espantar que um disco como
GONGRATULATIONS, o mais novo trabalho da dupla de meninos maluquinhos do
MGMT soe tão vanguardista. Ele não soa e nem é, mas quer dar a impressão à você leitor comatoso que sim. É mentira!!!!!!!!
Não compre essa idéia que também é plagiada de uma outra época. Os Monkeys lançavam discos que eram idênticos aos trabalhos iniciais dos Beatles (no tempo do iê iê iê deles, aquele antes deles começarem a fumar maconha, ficarem mais legais e menos meninos insossos de igreja católica).
Nem por isso os Monkeys eram ridicularizados por terem um seriado de TV horripilante e discos piores ainda. Eles eram a resposta à resposta da invasão britânica na América.
Os Beach Boys carregavam esse fardo de ser uma resposta, tanto assim que Brian Wilson acabou pirando por causa de toda essa pressão..........
Ou seja, essa pretensa modernidade do disco do MGMT é apenas uma bela camada de rejunte bem moldadinho em corpos de meninos com o torso nu, cabelos desgrenhados e sem a barriguinha de cerveja tocando para grupos de meninas que sonham em passar minutos entre seus dois pênis. O disco CONGRATULATIONS é antes de mais nada uma cópia bem feita.
Mas grande culpa disso tudo nem é no seu todo de Andrew VanWyngarden e Ben Martin Goldwasser. Na verdade quem deveria ser expurgado por tudo isso deveria ser um cara que se chamava Syd Barrett, que quando meu corpo for consumido totalmente por esse mundo podre de idéias, irei devidamente procura-lo onde estiver e tratar de mata-lo de novo. Joga-lo de alguma janela de dimensão para uma morte lenta e dolorosa, a ainda me safar sem que a opinião pública com suas atitudes de revoltada controlada pelo ânus faça piquete em frente à qualquer fórum........
A culpa é sim de Barrett, porque desde que ele teimou em juntar ácido lisérgico, pinturas e músicas tudo em um disco só e ainda por cima mostrar para Roger Waters que ele não passava de uma criança mimada e com problemas sobre transar com a própria mãe, todos os músicos que são denominados "indie" em algum ponto resolvem recorrer a tal psicodelia. Tentativas de fazer mais um som sobre transmutações de consciência regadas por músicas acachapantes muitas vezes são tão desconexas que se tornam chatas. Vou criar polêmica, o que também é uma idéia plagiada, mas todos vocês são como eu plagiadores de alguma coisa então, foda-se.........
Exemplos sobre isso são Animal Collective e o Sigour Rós. Por mais que você entenda a profundidade das letras e na sua cabeça todas a mudanças de tonalidades e acordes feitos e tocados em sincrônica perfeição. Todos os ruídos incidentais e samplers from hell e outerspace se tornem mantras maravilhosos em suas têmporas, lá pela metade do disco você está de saco cheio de tanta melodrama intelectual. Longas caminhadas derrapantes em um terreno moldado apenas aos iniciados e aos intelectuais. Mas os druídas plagiadores dos críticos estão sempre querendo fazer com que certas coisas sejam geniais, mesmo elas sendo uma chatice sem fim. É massificação de uma pretensa intelectualidade que necessariamente não é a mais inteligente.
Mesma coisa quando alguém diz que não gosta de Caetano Velloso. Execração na certa.
Como não gostar do poeta mambembe, orador especial de James Joyce e amigo de Mautner. Entendedor da parambolicamente redundante realeza do soberbo inquisitivo mundo das letras lavadas em escadarias de poemas sólidos ou não. Como não gostar de uma baluarte que apenas ao tocar as pessoas com suas palavras fora de ordem é capaz de emocionar desde o leãozinho até uma tigresa de unhas negras. Poeta, cronista de um povo.......
E chato pra caralho!!!!!!!!!
Ouvir um disco inteiro de uma coisa que é regurgitada de outras, é a mesma coisa que engolir feliz vômito. Voltaire.....ahhhhhhhhh Voltaire, você sabe do que eu estou falando!!!!!!!!!!
E o disco do MGMT é isso. Um amontoado de regurgitações que começa desde a primeira canção,
IT´S WORKING. Lá estão os barulhos estranhos, as guitarras desconectadas da realidade as vocalizações espaciais. Tudo que um dia Jefferson Airplane fez. A canção não é ruim de verdade. É apenas uma cópia feita em mimiógrafo......
A bateria de
SONG FOR DEAN TRACY é completamete copiada de Weird Fishes do Radiohead, apenas com a precaução de se fazer uma virada diferente no refrão. O clima de surf music misturado com Lux Interior deixa a canção como preferida dentro de uma pista de dança. mas o clima cheeleaders não dura muito e logo as vocalizações vão de encontro à Barrett de novo. Ahhhh esse maldito Barrett!!!!!!
SOMEONE'S MISSING poderia abrir qualquer desfile de misses do além. A canção é completamente construída em cima de uma cítara e violões. Com um orgão com citações à Ray Manzarek. A linha de guitarra base parece ter saído de Wonderwall do Oasis e quando a canção crese e poderia ir para algum lugar menos parecido com outras músicas, ela acaba......
Mas uma canção desse disco realmente vai para outro lugar:
FLASH DELIRIUM poderia ser chamada de Frankenstein sonoro. O que começa como regionalismo oriental tocado nessas casas especializadas de dança do ventre em São Paulo, parte para uma melodia pop que empolga e dá subsídios para que seu corpo se mova. Mesmo a canção bebendo na fonte do Talking Heads, as mudanças de direção apesar de muitas não atrapalham e muito pelo contrário o uso da flauta se torna um detalhe mais rico da viagem. Como se fosse possível amalgamar punk e Beach Boys em uma mesma canção disforme e bela.
I FIND A WHISTLE com seu refrão repetitivo mostra que o MGMT anda escutando muito o disco do Flaming Lips, Yoshimi Battles the Pink Robots. Ou qualquer um deles........
A linha toda de teclados e mudanças de direção dessa música foram criadas por Wayne Coyne. É mais arrastada que as demais músicas, o disco que vinha em uma crescente recua em terreno de perigoso bocejo. E é aí que a magia acontece, quer dizer a magia do plágio.........
SIBERIAN BREAKS. 12 minutos e 09 segundos........
Martirizantes, seja pelo começo bossa nova breguístico emo ou pelas mudanças de direção que nessa faixa parecem indecisão musical. Roger Waters tinha essa mania (aliás todas as bandas progressivas tinham) de compor músicas gigantescas de mais de dez minutos. Meddle do Pink Floyd tem um lado apenas com uma canção e mais nada. Essas canções ou acabam virando suítes com várias partes (como em Atom Heart Mother também do Floyd) ou não deveriam ser feitas. Porque para quem ouve é torturante não conseguir se apegar em apenas uma parte. Variação de tempos musicais nem sempre querem dizer genialidade. As pretensas viagens psicodélicas ficam restritas à alguns acordes ou barulhos. E todas as mudanças acabam voltando para o ritmo base que parece música de baile de debutantes, o que não quer dizer que não seja bela, mas sim de uma encomendada lisergia, comprada em lojas de segunda mão.
Lar Das Maravilhas da banda brasileira Casa Das Máquinas tem mais coerência que essa música pretensamente moderna do MGMT. Outra coisa que essa música me enche os olhos de tristeza por ver o quanto ruim uma canção pode ser, é que todas as tentativas de mudanças de direção são bem marcadas, mas não de um jeito sutil como por exemplo em Astronomy Domine, mas como se Jean Michel Jarré estivesse tocando.....
Mas a redenção parece querer chegar com
BRIAN ENO. A música é divertida na medida certa, com aquele ar de filmes de detetives dos anos 50 correndo por entre as gotas de chuva e escondendo-se nas sombras. O orgão nessa canção que tem um pé no disco FLAMEJOB do The Cramps, mas sem as guitarras insandecidas. O que é bom na verdade, porque a entrada do clima cabaret um pouco Dresden Dolls é bem vinda antes do segundo refrão. Lembra coisas boas como Lucifer's Cat e até Bike (outra vez Barrett). A músia cresce na hora certa e desagua em diversão das melhores possíveis. Um alento, rebento isolado por entre pessoas com o mesmo rosto. E mesmo o final da canção lembrando aquela famosa música do Pizzicato Five (Twiggy Twiggy), não atrapalha.
LADY DADA'S NIGHTMARE e
CONGRATULATIONS são descartáveis até o talo. A levada progressiva com pretensões epicas da primeira nada mais é que uma música de qualquer disco do Alan Parsons Project tocada por iniciantes. A pretensão de se fazer algo que seja lisérgico desaba na falta de idéias boas. Exemplo: seria muito mais viagem de cérebro fazer algo misturando por exemplo Fitter Happier com Be Careful Wiht That Axe, Eugene. Mas a sucessão de acordes de elevador é dolorosa. A segunda faixa é pop desprovido de segunda audição, poderia ser aquela canção para ser cantada em karaokês daqui há alguns anos. Mas não chega a ser ruim em uma totalidade. A simplicidade não é genial, apenas passageira.
Congratulations é um disco copiado e montado usando várias referências e vários trechos de outras canções. Não se engane porque ele não é original ao ponto que está sendo vendido. É plágio bem embalado por uma campanha bem organizada de marketing (a capa raspadinha, a caça ao tesouro pra assistir shows e as declarações sobre a banda não fazer singles). Não há uma linha lógica dentro desse disco e talvez nem fosse essa a intenção da banda. Mas o primeiro disco do MGMT tinha muito mais experimentações e as canções eram trabalhadas com uma maestria ímpar. Mesmo sendo louvável atualmente uma banda contratada de grande gravadora poder fazer o que quer, os meninos poderiam ter se esforçado mais.......
Ouça, aprecie o que você acha necessário e depois jogue fora e fique com o primeiro disco da banda. Congratulations deveria ser reciclado depois de ser ouvido, por isso nesse post não vai haver players com as músicas.
E sim o disco todo.......sirva-se, copie, plageie. Ligue o foda-se. Vivemos em tempos onde nem umas das mais promissoras bandas escapam de copiar (e mal) sons e sinais já existentes. Para que se preocupar com o mundo que vive devorando os restos mortais de pedaços mal mastigados de vômitos culturais. Regurgite você também, é possível que você ainda seja reconhecido com intelectual por várias pessoas. Do mesmo jeito que já haviam pessoas acreditando que o MGMT era o futuro da lisergia. Ou se não faça alguma coisa diferente, pelomenos seria uma boa variação de atitudes que falta hoje em dia.......
Mas ninguém entendeu o que queria dizer a frase da primeira canção em Oracular Espetacular:
WE WERE FATING TO PRETEND!!!!!!!!E PEGUE O DISCO
AQUI!!!!!!