A tradição é quase nostálgica. Por mais que se fuja do quesito listas de fim de ano, pouco pode-se escapar delas. Amarradas em um inconsciente coletivo que foge do controle de qualquer sinapse desavisada.
Elas são aglomerados de sensações que transpassaram por entre os ventrículos de quem elege os melhores de cada ano.
Obviamente a isenção e profissionalismo muitas vezes são a tônica, mas por muitas outras, elas tem um carater didático demais e messiânico por exagero. As ocasiões onde a impressão de que somos vulcanizados na borracha pesada de opiniões alheias é massacrante. Uma ditadura do que é ou não importante para você, que ao invés de ajudar, aumenta a sua sensação de deslocamento dentro do mundo cultural que o cerca.
Convenções, conceções, adulações ou qualquer dos ões que você puder imaginar. Por isso no primeiro ano onde o Gangrena Diario faz suas listas de fim de ano, resolvi inverter o jogo. Como seria se cada um pudesse fazer a sua própria e esta ter o mesmo peso e importância dentro de um texto de fim de ano. Que tenham a mesma relevância que qualquer uma montada por catedráticos da bola.
Mostrar o que moveu o coração de cada pessoa esse ano, por um simples e puro bater ventricular acelerado.
Nada de times especializados em milhares de vírgulas que por vezes impõem uma verdade que merece ser única para cada pessoa. Por isso mesmo mais verdadeira e poderosa.
O GD chamou leitores, colaboradores (que também leem o blog) e pedimos para que cada um montasse sua lista com os seus melhores de 2010. Uma coleção ímpar de opiniões e categorias que passam pelos discos, shows, sites, livros etc e tal.
Mas não pense que isso apenas é um privilégio de poucos e bons.
Nada disso.
O intuito aqui é compartilhar opiniões e abrir discussões. Transmitir informação e remixar os melhores para cada pessoa. Montar uma enorme lista coletiva de gostos diferentes e opiniões. Por isso MANDE A SUA LISTA PARA GENTE!!!!
O e-mail é : gangrenadiario@gmail.com.
Você escreve no título "As Minhas Dez Melhores de 2010". Descreve a categoria, e manda. O post será atualizado durante o mês de janeiro de 2011 e no início de fevereiro rola um sorteio com as pessoas que mandaram suas listas, o prêmio será divulgado em breve. O mais importante é que esse post seja um coletivo de idéias e milhares de dicas para quem lê.
E antes de começar o processo coletivo, um enorme abraço e agradecimento eterno para as pessoas que passaram por esse site e tornaram-se mais do que leitores, mas também próximos do ventrículo esquerdo. Juju Gomes, Marcos Xi, Lucas Lima, Milla Pupo, Bia Poiani, Lory Loove, Dani Hasse (que concedeu uma entrevista relâmpago sobre a capa do EP Bats da banda Insect Guide, desenhada por ela, que foi sensacional), Homero Gomes, Chieko Nakanishi, Juliana Biazetti, Bebel e a sempre presente Virgínia Serralha, os novos comparsas Raul Ramone e Moisés Lima. Enorme abraço e um fodástico 2011 à todos.
Agora veja as primeiras listas feitas por pessoas que são sensacionalmente especialistas em sentir. Mande a sua e participe. Traficar a informação é dever de todos!!!!!!
A primeira é do comparsa Marcos Xi. Editor do site ROCK IN PRESS. Com uma plataforma de lançamento para bandas nacionais e inesgotável capacidade de transformar notícias em algo atraente e cheio de informações necessárias. É dele os dez melhores discos nacionais do ano. Para encontrar o carioca Xi:
ROCK IN PRESS, o site.
Twitter.
01 - Mombojó – Amigo do Tempo
Amigo do Tempo representa o amadurecimento de uma banda que talvez tenha brigado até entre si mesma para chegar num som mais coeso e conciso. Não é um álbum de fácil audição. Requer requinte, clima e atenção. Descobrir cada detalhe de cada música é uma nova chance de descobrir uma mais nova melhor música.
02 - Tulipa Ruiz – Efêmera
Foi como estreiar com os dois pés direitos. Tulipa simplesmente colocou no mundo um álbum praticamente irretocável, cheios de detalhes e estruturas sonoras desnorteantes, passando longe de mesmisses cantadas por ‘novas cantoras do Brasil’. Doce e sincero. Todo o álbum deveria ser assim.
03 - Marcelo Jeneci - Feito Pra Acabar
Completando a incrível trinca de álbuns quase irretocáveis do ano, Feito Para Acabar soa como a trilha sonora da esperança do seu dia-a-dia. Existe ali uma música que você gostaria que Marcelo escrevesse para seus dias ou mesmo um momento que você já viveu. Muito sentimento em poucos acordes.
04 - Jennifer Lo-Fi - Summer Session EP
A beleza desse EP está na forma como ele foi contruido: Todo gravado ao vivo, parece ter deixado-o mais orgânico. Você sente as canções de maneira mais fácil e a complexibilidade dos arranjos acaba não te atrapalhando e levar consigo o cd no seu player. Feito para extravasar e apontar novos futuros.
05 - Team.Radio - White Tokio EP
Como uma pétala de flor que cai em nosso ombro, White Tokio é simplesmente um disco ainda desconhecido, que poucos sortudos puderam desfrutar, mesmo que esteja para download gratuito na Sinewave. O album é puro sentimento em guitarras distorcidas e melodias vocais viciantes. Shoegaze na sua forma mais pura.
06 - Holger – Sunga
Sunga não é bem o melhor que eles poderiam dar ou o mais belo que os fãs poderiam ouvir. É uma coleção de canções que, na sua junção, alegram o dia do mais deprimido Keanu Reaves que possa estar se sentindo Forever Alone. Música para importar, show para pular e álbum para guardar.
07 - Rosie and Me - Bird and Whale EP
O registro de estréia dos curitibanos trás a nata de seu repertório em versões de qualidade maravilhosa. Agora, junto com a Curve Music (selo), o trabalho parece ganhar asas para os EUA e Londres, locais que facilmente se definiriam como a casa deste folk simples e belo. Ep com extremo gostinho de quero mais.
08 - Sabonetes – Sabonetes
Jovens, talentosos e cheio de gás, acabaram virando uma das grande promessas futuras da música, capaz de romper a fronteira do indie com o mainstream – fato que ocorre pela banda fazer sua fama em festivais independentes e assinar com a gravadora do capitalista mestre da música, Rick Bonadio. Ótima coleção de canções colantes e bem produzidas.
09 - Love Bazucas - Love Bazucas EP
Juntar o poder de duas máquinas de fazer música boa só poderia dar nesse grande álbum. A estréia do Love Bazucas é surpreendente em conseguir manter o meio termo e agradar tanto os fãs de Black Drawing Chalks quanto do ex-Forgotten Boys Chuck Hipólitho. Quatro canções diretas e poderosas, resultando num ouvido desnorteado e olhos arregalados.
10 - Dorgas - Verdeja Music EP
Uma das grandes apostas para 2011 se foca em literalmente parecer diferente, usando-se de nomes bizarros e organização melódica altamente contraditória. Letras mínimas sem o mínimo de contexto e troca abrupta de clima nas canções, além da gravação lo-fi nos vocais, são os detalhes que fazem o charme da banda. Definitivamente algo para estar de olho em 2011.
A próxima lista foi feita pela leitora do site e interativa até a última gota de tatuagem, Milla Pupo. Jornalista de formação e uma das mais rápidas sinapses que já conheci. Com ela vem seus melhores shows de 2010. Para encontrar a Milla por aí, o twitter: @millapupo.
Metallica
Eu fui ao show do Metallica pela primeira vez em 99 aqui no Brasil e, embora tenha sido ótimo, não tinha telão e eu, baixinha que sou só consegui ver o baterista, Lars Ulrich após pular muito, portanto Metallica entra na minha lista de 2010 porque finalmente consegui ver a banda e, além disso, qualquer show que comece tocando Ennio Morriconne merece todo respeito do mundo [a abertura, extremamente emocionante ficou por conta de The Ecstasy of Gold, trilha do filme The Good, the Bad and the Ugly]. Não sei descrever a emoção de ouvir aquilo.
The Mars Volta
Show redondo, emocionante, sem arestas. Foi o presente surpresa do ano. Ver, ouvir e, porque não, sentir Omar Rodríguez-López e Cedric Bixler-Zavala ao vivo é digno de qualquer experiência que merece ser guardada na lembrança para sempre. Portanto não apenas melhor de 2010, como um dos melhores da vida, com certeza.
Rage Against the Machine
Sinto que é quase um pleonasmo falar que RATM foi um bom show, porque é meio que uma obviedade isso, mas foi demais. Quando o show começou, eu senti que meu coração podia explodir de raiva. É uma sensação estranha, um misto de fúria com indignação e uma vontade de mudar tudo, é o que o RATM provoca em quem escuta, ainda que temporariamente e sem efeitos prolongados. Posso falar que pulei como se não houvesse amanhã, verdade que também fui igualmente empurrada, esmagada e quase pisoteada, mas jamais esperei pessoas tranqüilas nesse show. RATM entra na lista porque além de histórico, foi um show para gritar, pular, para ter raiva, para ter 15 anos de novo e xingar o sistema.
Los Hermanos
Só consigo definir como um show puramente emocional. É o principal peso que levo. Eu chorei, cantei, pulei e sorri demais. Piegas? Talvez, mas Los Hermanos entra na lista puramente pela simplicidade de conseguir me emocionar como poucas bandas conseguem, é show de fazer carinho na alma.
Mika
Lembro de uma festa na casa de um amigo que dançamos ‘Grace Kelly’ seguido do comentário “Nossa, deve ser tão legal um show do Mika!” e não estávamos enganados, é demais mesmo. Mika tem carisma, faz qualquer um dançar, não tem como ficar indiferente no show, ele é um verdadeiro frontman, além da banda e de toda produção de palco. Mika entra na lista por deixar de ser apenas um show, é um espetáculo a favor dos sentidos: é áudio, é visual e altamente contagiante e, se fosse ter cheiro e sabor, com certeza seria o de um pirulito
Depois da dose ao vivo, algo nas entrelinhas. A próxima lista vem de uma das primeiras leitoras do blog, a menina dos livros, Juju Gomes. Inserida dentro do mundo das letras ela é aposta certa nesse quesito. Antenada em tudo o que se lançou esse ano. A introdução é dela:
"Há uma semana atrás, o Fábio (@gangrenadiario), mandou um convite com a proposta: fazer uma lista dos meus 10 livros preferidos do ano. No ínício, achei que seria fácil mas a liberdade de colocar apenas 10 dos mais variados gêneros, me deu medo.
Depois do receio inicial cheguei a esta lista, espero que possa ter resumido o meu gosto pessoal e que seja uma dica de presente aos leitores":
Este livro mostra que policial não é sub gênero e pode ser bem escrito!
2 . Miguel e os demônios (Lourenço Mutarelli) Companhia das Letras
Apesar de não ser quadrinho, o autor manteve o ritmo acelerado do início ao fim! Eu sou fã, então...
3 . Freedom (Jonathan Franzen) Farrar Straus Giroux
Ainda sem tradução em português, comprei no original prá poder reclamar e me dei mal...o modismo não é a toa. Jonathan Franzen se continuar assim poderá ser o novo Phillip Roth.
4 . Poema em quadrinhos (Dino Buzzati) Cosac Naify
Leu “Deserto dos Tártaros”? Ainda não? Dino Buzzati é leitura obrigatória, sempre.
5 . Catatau (Paulo Leminsky) Iluminuras
Reedição do único livro em prosa de um dos mais notáveis escritores brasileiros.
6 . Meio intelectual, meio de esquerda (Antonio Prata) Editora 34
Não basta ter humor, tem que ser bem escrito e inteligente como Antonio Prata.
7 . Alice no país das maravilhas (Lewis Carroll) Jorge Zahar
Edição com a qualidade de tradução já conhecida pelo mercado, além da estética apurada e preço prá lá de acessível.
8 . Um erro emocional (Cristovão Tezza) Editora Record
A emoção do amor pelos livros que passam do autor para a leitora ou vice versa...Ficou curioso? Leia!
9 . Selo Farol HQ da Editora DCL
Como o selo está em formação, não colocarei títulos mas os clássicos para uso escolar mostra que há vida inteligente na literatura infato-juvenil.
10 . Andy Warhol – O Gênio do Pop (Tony Scherman) Editora Globo
Uma biografia esclarecedora sem ser piegas.
Dica: Compre de editoras que respeitem sua inteligência.
Eu sou a Juju, uma livreira marketeira que é uma das pessoas mais cri cris em relação a literatura que você deve ter conhecido.
Flickr: http://www.flickr.com/photos/juju_gomes/
Twitter: @juju_gomes
Blog: http://alemdopdf.wordpress.com
Listão esse hein???!!!!
Depois da bela, a fera. Raul Ramone surgiu de sobrenome punkeado e tomou de assalto a internet. O blog Degenerando Neurônios assim como o tumblr, são dois dos mais bacanas na binariedade e a capacidade de garimpagem desse cronista é arrebatadora. Com ele chegam as dez covers do ano. Para achar o cidadão, os locais são:
Site: http://degenerandos.blogspot.com/
Tumblr: http://degenerandoneuronios.tumblr.com
Limp Bizkit tocando "Yellow" só reforça a teoria de que TODO MUNDO gosta do Coldplay, uma das melhores bandas inglesas surgidas nos últimos anos.
Sheryl Crow com apoio do The Roots, somado à participação de Chuck Leavell, tocando "All Down The Line", dos Rolling Stones é o mesmo que dizer: "não tem como dar errado".
Obrigado The Kills por regravar "Pale Blue Eyes", do Velvet Underground e mostrar, na prática, que só a Marisa Monte é capaz de estragar uma música tão bela quanto essa.
Of Montreal fazendo um medley com clássicos do álbum Thriller, de Michael Jackson é pura diversão.
Só Will Ferrell consegue cantar "Power of Love", da Celine Dion, e não soar cafona (sem contar que ficou muuuito engraçado).
Beck, Sérgio Dias, Annie Clark, Daniel Hart, Brian Lebarton, além dos integrantes do Liars - todos surpreenderam na regravação de "Never Tear Us Apart", do INXS.
Record Club: INXS "Never Tear Us Apart" from Beck Hansen on Vimeo.
O duo The Bird and The Bee e sua versão para "I Can’t Go For That", do Hall and Oates, representa uma das melhores honenagens registradas no álbum Interpreting the Masters volume 1: A tribute to Hall and Oates.
Essa versão da Eliza Doolittle para "Fuck You", do Cee-Lo Green, é hilária, simplesmente pelas caras e bocas que a cantora faz ao dizer Fuck You.
Muito legal ver a Lykke Li ressuscitar "Ready Or Not", do antigo Fugees - de Wyclef Jean, Lauryn Hill e Pras Michel.
John Legend e o The Roots deixaram o mundo de queixo caído (inclusive o meu) ao tocar "Wake Up", do Arcade Fire, durante um show em Nova York.
Após a lista das melhores covers, vamos de mais uma sobre shows. Eis aí que o tom do post começa a tomar corpo. Bia Poiani, talentosa escritora que no seu blog, Pseudopoesia, destila uma série de comentários e métricas assimétricas que transparecem sua força.
São cinco shows e cinco visões diferentes. Por isso mesmo, importantes.
Para achar as destilações literárias de Bia você pode ir ao blog ( http://biapoiani.wordpress.com/ ) ou no twitter ( http://twitter.com/#!/biapoiani ). Eis a lista...
"Quando fui convidada a falar dos melhores shows de 2010, imaginei ser fácil, afinal, foram inúmeros. Ledo engano. Este ano foi um festival de sensações e perreios que fica difícil ser justa e fazer uma lista com os melhores.
Dito isso, e sem capacidade emocional de selecionar por ordem de relevância, aqui vai um Top 5 beem pessoal":
- The Swell Season – HSBC Music Hall, 26.08
Sabe aquela dupla fofinha do filme “Once – Apenas Uma Vez”? Experimente se deliciar com a trilha sonora (com a maioria das músicas previamente decoradas) ao vivo. Acrescente canções incríveis da irlandesa The Frames, um vocalista que berra com a alma e tenha uma noite de arrepios, risadas e lágrimas. Sim, tudo é possível nas mãos de Glen Hansard, que te emociona ao cantar sem microfone, e te faz rir com piadinhas típicas de “gringos” abismados com coisas que só se vê em terras tupiniquins. Soube da vinda da banda a dois dias do show, participei de uma promoção de última hora, e pela primeira vez na história ganhei um par de ingressos. Só isso já tornaria a data inesquecível.
- Paul McCartney – Morumbi – 22.11
Imagino que só de ler o nome do homem, comentários se tornam vagos. Mas, show é uma experiência um tanto particular, e é difícil escolher um único momento foda deste espetáculo.
Mais que o encontro de gerações e coros uníssonos em um estádio lotado, pra mim - e minha humilde e particular opinião -, não há nada mais tocante que presenciar o esforço de um artista em falar português. E, mesmo que muitas dores de cotovelo digam por aí que ele faz isso “em todo país que vai”, é exatamente aí que está a beleza do ato: ele faz isso em TODO país que vai! Já parou pra pensar quantos shows ele fez na vida? E por acaso ele precisaria se dar o trabalho de agradar alguém? Sir Paul faz questão de ser agradável, divertido, de estar em contato com seu público, nos leva para uma grande noitada com os amigos, ao som de canções inesquecíveis. Mais emocionante que ouvir clássicos do Fab Four, foi me divertir com Macca (o amigo, chegado) improvisando “tudo bem in the rain”.
- Dave Matthews Band – SWU – 10.10.10
Ok, aqui entra um comentário muito suspeito. Sou completamente enlouquecida por este homem, e qualquer ruído que ele fizesse no palco já me agradaria. Ainda mais quando este mesmo ser ensandecido havia perdido todos os shows que ele fizera por aqui.
Devidamente instalada na grade da pista VIP, eis chega um cara de estatura média, com o violão na altura do peito, andando tranquilamente, analisando o palco, olhando todos os detalhes, esperando a banda se ajeitar... E, sem dar tempo de você se dar conta do que estava por vir, ele explode seus sentidos com “Shake me like a monkey”. A partir daí, o show se torna uma grande Jam session, com músicos confortáveis e íntimos dos seus instrumentos, um líder apaixonado pelo que faz e pelo seu público, uma energia contagiante e indescritível. É possível notar, nos olhos de cada um, o tesão de estar ali, naquele palco, naquele único momento. Você sente, e você se deixa levar, e quando menos percebe, já se esvai em lágrimas. E isso, são poucos que conseguem transmitir.
- Rage Against the Machine – SWU – 09.10.10
Há toda uma adolescência roqueira aqui que explica minha euforia neste soco na boca do estômago que foi o RATM. Freqüento shows de rock desde meus 13 anos, e, em TODOS que estive, uma mesma cena se repetia: a execução de Killing in the Name, seja no rádio sintonizado no momento, ou o coro que começava sabe-se lá de onde. Era um hino, um mantra, música obrigatória decorada religiosamente. E foi assim, durante mais de uma década, que guardei minhas memórias musicais. E de repente eu tava ouvindo ali, batendo cabeça e ouvindo essa porra direto da fonte! Foi um filme que passou em 4 minutos na minha cabeça, no meu corpo, nos meus gritos. Não tenho palavras pra descrever a emoção de estar ali. Voltei pra adolescência, perdi a voz, libertei o espírito.
- Metallica – Morumbi - 30.01.10
Em 99, com espinhas na cara e 14 anos no RG, eu vi Metallica. Eu cantei e gritei e chorei por Enter Sandman, por Nothing Else Matters, aprendi a apreciar Four Horsemen e im-plo-ra-va por Fade to Black. Obviamente eles não tocariam, estavam no auge da turnê “The Garage Remains the Same” e o negócio deles era tocar cover e variar no Black, Load e Reload. Com alguns clássicos aqui e ali, mas o show marcou uma nova era da banda mais pesada para o meu ouvido.
Onze anos depois, uma expectativa e uma frustração depois (afinal, como esquecer as três horas na fila em 2003), lá estavam eles, desta vez em um lugar maior e mais fraco (é, Morumbi é bem ruim pra shows, devo dizer), mais longes de mim (antes grade da pista, agora cadeira do estádio...), mais velhos, mais poderosos, mais histéricos. Com um setlist incrível, uma veia saudosista pulsando mais fortes neles que em mim. E para minha surpresa, logo no começo escuto os primeiros acordes do que me faria chorar feito um bebê headbanger: os primeiros acordes de Fade to Black, música que embalou minhas paixões estúpidas adolescentes, que eu morreria para ouvir ao vivo, que eu esperava mas temia não ouvir, afinal, seriam 2 shows naquele fim de semana e eles poderiam deixar para o outro dia. Mais uma vez retornei à minha adolescência, mais uma vez me transformei em choro e grito, mais uma vez saí de alma lavada.
Bom e depois dessa confraria neuronal, não pense que não existiria uma lista com os melhores do ano feita por esse sacripanta que vos escreve. Minha pequena parte nesse todo serão os melhores discos internacionais. A lista de bolachas vem um pouco mais longa, afinal de contas o ano de 2010 foi recheado de coisas bacanas.
Os melhores discos de 2010 (produzidos na gringolândia):
16) LE NOISE - Neil Young
Não dá para pintar o quadro. O mais recente trabalho do dinossauro é difícil. Guitarras produzidas especialmente para a confecção do disco, sem adição de overdubs ou trilhas extras, Le Noise é uma fotografia crua e nua de um monstro nas composições. Young é tão visceral quanto genial na medida desconcertante. Demora para digerir, mas quando o disco torna-se palatável, fica extraordinário.
15) THIS IS HAPPENING - LCD Soundsystem.
Não é metade da pedrada que foi Sound Of Silver e tem menos virulência que o primeiro disco do combo liderado por James Murphy que vem ao Brasil em 2011, pelas mãos do Festival Popload Gig. Mas esse registro da banda é poderoso o suficiente para deixar no ar canções perfeitas como Drunk Girls, You Wanted a Hit ou I Can Change.
14) NOT MUSIC - Stereolab
O que era um disco repleto de lados B e canções não gravadas tornou-se um dos mais bem acabados e cheios de lisérgicas passagens do melhor estilo pop rock francês. A banda é uma das minhas favoritas por toda a história, mas essa bolacha deixa uma eternidade latente.
Diversão inteligente.
13) HAWK - Isobel Campbell e Mark Lanegan
O terceiro registro da dupla vem com uma aura sombria que desafia o cérebro, seja com a geleira faríngea de Lanegan ou a doce e pesada garganta de Isobel. O tele transporte para algum lugar escuro do country americano e o peso vocal é palpável. A mistura entre o demoníaco e o angelical.
12) THE COURAGE OF OTHERS - Midlake
Se é possível uma banda de folk transmutar a lisergia e a calmaria para dentro de um ritmo tão batido, os texanos da Midlake possuem essa capacidade de sobra. Um disco lançado no segundo mês de 2010 que passou o restante mostrando-se a cada audição, uma das mais bem acabadas produções feitas.
11) KING OF BEACH - Wavves
Não existe apenas um elemento que seja o melhor nesse disco. O pop estranho e caleidoscópico, as distorções em progressão atérmica e as letras com a picardia exata para trazer a diversão suja de volta à pauta.
10) EXPO' 86 - Wolf Parade
O adjetivo maduro talvez não mostre toda a maestria, que foi alcançada pela banda com esse disco. São notas que tem o peso e a poesia na medida exata de alquimia sonora. Um dos que parecem crescer cada vez que se ouve.
09) CRYSTAL CASTLES II - Crystal Castles
Alice Glass ganhou definitivamente o status de musa lado B mais perigosa do planeta, com suas apresentações com fetichismo violento em cima do palco. O disco mais recente da dupla mostra que é possível construir música eletrônica com apelo de pista de dança, sem perder a pau durescência do punk que aflora no trabalho da banda.
08) THE GOLDEN PERIOD - TV Buddha
Uma das maiores surpresas do ano. Essa banda que tem mãos pesadas, construiu um dos registros mais concretados de 2010. Distorção e um peso tectônico que transbordam em cada nota. É difícil não deixar-se atordoar pelas pancadas seguidas e com a velocidade descomunal desse quarteto, que nesse próximo ano deve ser mais ouvido.
07) THE AGE OF ADZ - Sufjan Stevens
As experimentações desse artista transcendem o que pode-se considerar meramente um amontoado de citações. O senhor Stevens tem mais ases nas mangas de chapeleiro maluco, que a maioria das atrações dentro do cenário. Esse disco é a prova definitiva de que isso acontece.
06) THE FOOL - Warpaint
Elas terminaram o ano como as namoradinhas do mundo alternativo. O quarteto não contentou-se apenas em ter a produção de John Frusciante, mas também construiram um dos mais belos discos de 2010. A cadência cheia de inteligência e canções inesquecíveis fazem dessa estréia uma das melhores de todos os tempos. L.A. bem representada.
05) BROTHERS - The Black Keys
Um dos cinco maiores petardos do ano. A dupla da barackolândia montou um aula sobre blues e rock que tem todas as pretensões e razões para tornar-se épica. O início do disco com as canções Everlasting Night, Next Girl e Tighten Up é de paralisar sinapses e deixar qualquer um boquiaberto. Pedrada.
04) ALPS - Motorama
Os russos em pouco menos de quarenta minutos dão uma aula de pós punk e pop cinza que é de cortar o coração, tamanha a beleza das composições. Letter Home e Wind In Her Hair são duas das mais bonitas canções do ano e o disco todo é de uma beleza triste inigualável.
03) THE SUBURBS - Arcade Fire
Não tem como negar que os canadenses fizeram um disco inacreditável esse ano. Ouvir os subúrbios cantados, foi como observar uma banda saindo do lado mais escuro e tornando-se um gigante incontrolável. Tudo o que a Arcade Fire tocou tornou-se épico e cheio de significado. Por mais que se torça o nariz para o hype, não pode-se negar que o ano foi deles.
02) INNERSPEAKER - Tame Impala
Há tempos que não acontecia uma estréia como essa. O primeiro disco da banda australiana é de uma maestria sem precedentes. Não só absorvendo toda a psicodelia da era Beatles, mas também elevando equações floydianas de épocas barrettianas com uma genialidade ímpar. Não são apenas canções complicadas e cheias de lisergia barata. Alter Ego por exemplo, mostra que o rock escrito por esse quarteto faz dançar do mesmo jeito que realiza cálculos quânticos. Um conjunto de canções espetaculares como Lucidity, I Don't Really Mind, Expectation e um disco todo que é poderosamente hipnótico e bem realizado.
01) I'M NEW HERE - Gil Scott Heron
Se por um lado The Suburbs é pessoal demais, esse disco do gênio Gil Scott é visceral até o último suspiro de sentimento. Uma história de vida que sangra em cada acorde, em cada verso e por milhares de assimétricas e geniais misturas de rock, hip hop, jazz e claustrofobia. Me and The Devil é uma das melhores canções do ano disparadamente. Um disco onde a vida funde-se com as notas de maneira tão cortante que ninguém sai ileso depois da audição.
Pronto
Esse é só o começo do post.
Leia, palpite, discorde e mande a sua lista pro e-mail do blog!!!!!















































