terça-feira, 3 de junho de 2014

É preciso deixar morrer

É preciso deixar morrer
para que ande
para que se perca
para que remonte
é preciso deixar morrer
sem piedade ou pena
como qualquer folhagem no outono
é preciso deixar morrer
como todo fim de fisiologia
como esperma seco
como fósforo
como rastilho de pólvora
como fogos de artifício
como acorde final de canção
é preciso deixar morrer
com uma certeza ímpar
é preciso deixar morrer
como estrela em uma explosão
sem medo
como se fosse a vida
a pedir passagem
pois a natureza sempre cobra retenção
é preciso deixar morrer
para que se siga o caminho sangrando
aberto
ereto
coberto do que restou
é preciso deixar morrer
para que não se arrependa de deixar viver
o que não era
o que não é
o que não será
é preciso deixar morrer
para que se grite
para que se agite
o marasmo da vida
é preciso deixar morrer
pois não se abriga o podre
pois não se consegue a redenção
pois os pedaços de lona escura não cobrem o cáustico sol
por isso sem falta
é preciso deixar morrer
para que se passe
pois não existe flagrante na tristeza persistente
apenas descaminho e ilusão de controle
é preciso deixar morrer
para que floresça
para que amanhecer seja possível
para que se exponha ao luar
e mesmo sabendo que as tentativas são pífias sensações de prazer
é preciso deixar morrer
o gozo
o esporro
o jorro de merda que aflige diariamente a cabeça
pois é preciso deixar morrer
o cotidiano cinza
a verde esperança
o vermelho coagulado
do sangue calcário
é preciso deixar morrer
a vida
para enfim poder reverberar o descontínuo
deixar-se levar
para que se faça outra coisa
dilacerar essa vontade guardada em viver sem amarras
mas é preciso deixar morrer
pois a vida é um eco de nada
sem ondas
sem mar
sem sal ou areia
é preciso deixar morrer
para que se crie um cataclismo
e o destino desatine
descarrilhe
desande a moeda corrente
de dissabores pós modernos
é preciso deixar morrer
o enfim
o entretanto
o porém
o desencanto
é preciso deixar morrer
a igualdade para que se possa viver
plenamente com todas as diferenças
é preciso deixar morrer
a covardia
a estática
a trapaça
é preciso deixar morrer
o amor
para que enfim se torne eternidade

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