terça-feira, 12 de agosto de 2014

Gerador de cinzas

Meu lado esquerdo do cérebro é incerto
traz apenas desespero
trôpego incomodo
cambaleio
sou meio inteiro
nem ao menos tentativa tenho
é mudo solavanco hipotônico
flácida estrada canvas
o sarro amargo em mim
tentáculos de uma culpa infinita
sou gerador de cinzas
um esquecido cadáver desavisado
que sou
somos
sem lados
esquerdo ou direito
apenas tentativas falhas
complexas
completas
daquilo que nos atravessa por completo
por inteiro
como um descarrilho
sem aviso
como se fosse ônibus
esmagando a cabeça de um cachorro
deixado fedendo à beira de uma sexta feira
por debaixo do Elevado
aquele viaduto com maldito nome militar
à sombra da sociedade
que apoia o genocídio palestino
o cheiro de merda pelos cantos
a cor do lixo pela ciclovia no sábado
um mundo em ilusão
por uma lua gigante inabitada
enquanto a alma humana
escorre pelas valas do calçamento
o emprego oco
que preenche espaços do corpo com palha
SECA
somos geradores de cinzas
máquinas esmagando árvores
mímicos do desespero
o apego aos cento e quarenta caracteres
aos desavisos de uma teimosia manca
teimando por séculos
em permanecer rígidos
estáticos
assombrados pela própria magnitude
que inexiste
geradores de cinzas
da tecnologia que sufoca
abarrota a garganta de asco
os olhos que não se veem
os corpos que não se tocam
as almas solitárias
tão solitárias quanto um vento nesse tempo árido
nesse concreto metalizado
que supostamente protege as vidas
da própria vida
ACORDAR
do pesadelo
não é uma questão de vontade
LATÊNCIA
viciante como o pó
persiste consumindo artérias
quântica perdida por entre os dias
holística que substituiu a transgressão
FODA-SE A HOLÍSTICA
matem-na e a enterrem
longe do mar
para que jamais possa ressurgir pelas ondas
para que jamais renasça pelo esgoto
clamando um mundo melhor
sem sangue
sem fogo
apenas com a leveza em bruma da alma
a rezar
aliviando feridas
que devem sangrar
vivas escaras em vermelho vivo
únicas provas de que não são nossos corpos
robóticos endoesqueletos
deixem queimar a pele
em distorção suficiente
para que enfim se possa despertar
da calmaria
que já se vai tarde
por entre os poros
o grito uma faringe
rouca
amedrontada
nascida muda
quer agora o controle
deixe-a perfazer o caminho
transgredir
a única peça que falta dentro do Universo
a cegueira pós moderna
da sociedade ascendente
perdendo o rabo na cauda de um cometa
elevando-se em mérito reverso
esmagando a grama que ainda resta por debaixo dos pés.

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