terça-feira, 9 de setembro de 2014

A recessão da alma

Isso seria um poema se você pudesse ler,
isso seria um poema se eu soubesse escrever.
Nós não lemos mais,
nós não escrevemos mais,
existe apenas uma tela vazia fria.
Vigilantes lentes nos acuam em cantos escuros,
a tela escura que nos persegue.
Disseram-nos que vivemos em tempos de recessão,
porém não a recessão que nos amedronta,
existe uma recessão de humanidade,
uma recessão da alma.
Os homens de ternos dizendo-nos o que pensar,
os homens em túnicas a explodir uns aos outros,
uma recessão da alma.
Com empregos estúpidos que nos pagam mal,
em vidas jamais quitadas que não nos servem,
como cães abandonados tentando sobreviver,
um dia de cada vez,
uma recessão de alma.
Como um incontrolável assassino liberto por juízes cegos,
os espertos cartesianos com seus bolsos repletos de ódio,
a recessão do corpo humano,
o corpo que não entende o mundo,
o mundo real,
o corpo real.
Um espaço vazio sem ar,
a poluição cotidiana tornando a alma humana uma tela em branco,
mentes em modo automático respirando o nada,
os abismos da coexistência,
homens assassinos e espancadores de mulheres,
enterrando suas crianças com pílulas e apatia,
uma recessão de alma.
Que extermina estações e separa água em pedaços,
porções pobres de nada formando poças,
afundam peles e armas em adolescentes sem rosto,
com advogados pagos para libertarem o inferno,
a corrupção policial nos tiros exterminadores de protestos,
o eterno estupro cerebral sem piloto automático.
Nós vivemos em recessão da alma,
sem lugar para fugir ou esconder-se,
em fotografias revelando mais do que queríamos,
através de pessoas que não conhecemos.
Nós nascemos nesses tempos,
cresceremos nesses tempos,
sofreremos nesses tempos, e,
morreremos nesses tempos,
contudo,
esses são os melhores tempos,
são tempos que podem ser amados,
pois escolheremos ressuscitar se assim quisermos,
esses tempos onde a ausência de cor brota,
são os melhores tempos para se lutar pela alma.

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