quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Parte I: O Nascimento ( trecho de O Coração Binário e a Navalha em Sua Alma )

A única lembrança era o cinza, no domingo pela manhã. O cinza. Um grito persiste em sangue, placenta e ódio, a rejeição uterina. Amalgamando paredes, o grito cinza, única lembrança que restou daquela manhã, e, nem ao menos as folhas presenciaram a morte certa ao nascer. O cinza. Como um soco perpétuo, como um carma infinito, como o fígado ensopado em sangue, como o vômito afoga a faringe.

Mantém-se desde os primeiros movimentos do corpo, o choro psicótico da criança que nem ao menos cambaleia, porém URRA, pois sabe que não há saída, entende o podre mundo em metal, [e] é só o começo da dor. Sente então o ódio crescer, desata seus pulmões pela garganta, rebenta a epopeia da inércia coronária, e grita!

O cinza do nascer... Como se a pele rasgar-se-ia.

Assim se nasce... Por entre a dor, sangue e solidão... Se nasce só, o fórceps crava seus dentes em seu rabo, se nasce só e cinza... Amarelado em líquido biliar egocêntrico, com o mundo em revés, tanto quanto o desespero do saber que algo está errado desde o nascimento, desconexão umbilical precoce...

Concepção odiosa relembrada em cada grito do eclodir, pois inexistente é a liberdade do autoaborto... Médicos mecânicos e seus instrumentos em ereção, o primeiro ato do maldito deus alimentando o medo à maquinaria... Inadequação tecnológica cravada no abdômen, enquanto a frieza do metal mostra seus primeiros diretos no rosto...

Incerteza de nascer sem querer, sem ser consultado, ser expelido nu, coberto por lava morta de placenta, expulso em um mundo que não é seu...

***
Assim nasce o cinza,
a morte do permanecer incerto,
pelo resto de toda vida,
afogado em uma horda de demônios,
a ninarem teu sono,
fetos mecatrônicos e suas engenhosas traquitanas tiquetaqueando,
desespero desse eterno despreparo à vida,
de uma geração pós - moderna,
envolvida pelo óleo, fuligem e vapores industriais,
pela bossa pós - hippie que nunca chegou aos aristocratas interioranos,
assim uma geração toda nasce em cinza,
protegidos por uma vagina opressora e repressora,
dona de um lácteo abismo,
da morte por asfixia nas mais variadas formas de beijo,
beijo materno morte da alma,
coxa retesada sentindo mãos procurando o úmido sexo na tenra idade,
um corpo desatento,
uma caridade misógina,
algo inacessível sem explicação,
repleta em pelos, gozo e labia majora.
Acordamos na proibição do toque,
no desalento do não desejo,
não há a liberdade do não,
apenas as leis que sempre clamam talvez,
assim crescemos no desatino de não entender,
nunca o que significa a figura feminina,
o retroceder ao útero,
permanecer encolhido,
por dezenas de anos seria mais digno,
contrário desse nascimento involuntário,
dessa concepção aleatória,
dessa imposição paternalista,
a mulher parideira, a mulher ideal,
a que provém os herdeiros,
sem ao menos querer a penetração,
assim se nasce cinza,
caminhando pela calçada cinza,
deixando um rastro cinza,
de solidão, autoritarismo e ódio.
Uma última geração de crianças criadas por mulheres,
que jamais entenderam o significado de ser mulher,
residiam em lares,
trepavam como máquinas,
limpavam a casa,
a espera do dinheiro paternal,
diminuídas pelas próprias mães,
que as tratavam como futuras escravas,
chicoteadas pela sociedade social democrata quase neoliberal,
ordenadas em ser apenas enfeites vaporizados,
ornamentos de açúcar e solidão,
enquanto os homens de Atenas lutavam,
treinadas para a ordenha psíquica,
ensandecidos pelo capital e a sua busca,
por secretárias avançadas em saias justas e decotes malditos,
que queriam não uma destruição do modus operandi,
mas sim seus lugares como dos lares...

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