sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O poema blues do concreto

Não existe mais lugar para esconder-se
nem ao menos o mecânico dia

Não existe mais poluição para ater-se
toda a cinza fumaça torna-se liquido
enquanto o dia passa

Pessoas e seus cartesianos modos
monstros presos fora do armário

ternos dizendo o caminho para casa,
esposos aracnídeos sugando sangue
de esposas sem a língua
os cantos com moradores de rua
pessoas tentando voltar às suas cavernas
cavernas as quais foram empurradas
por outros...

Esperando que desapareçam ou morram de uma vez.

O trovão da chaminé cuspindo lava e morte
nas arestas das favelas
todos os carros de polícia com câncer oleoso
balas cortando o ar pesado
os gritos de bebês acéfalos
nas casas temporárias em noites de Natal

Thom Yorke no rádio e a revolução silenciosa
as luzes aproximando-se
a casa de vidro permanece intacta
a inalterabilidade do governo

Estrada Bandeirantes com pedaços de carne
ferro esmagado e pernas arrancadas

o sol ainda permanece horizontal e belo
tornando-se mais do que salvação
porém como todo herói, morre ao entardecer
nós ainda estamos sós, nascemos sós e morremos sós
pensando em não nos transformar em lunáticos
sermos atropelados por um caminhão no meio da estrada
esperando permanecer sãos

em ver todas as estrelas e conseguirmos sorrir
as luzes da avenida, o entrecanto vermelho brilha e brilha
nós rezamos

no entanto essa vida cartesiana custa tudo
as almas sem preço e com desconto
fábricas atômicas manufaturando corpos

ela corre por entre os carros
gritando como a vida é nada
não possui roupas, a pele é ornamento
e é bela
trucidada
sangrando
é real...

a única verdade real  é a transgressão
todo o resto é esperança
presa em caixas de cereais
armadilhas seriais de cancerígenos flocos
o rádio ainda diz que Jesus salva
pastores esmagando convicções do Apocalipse

e o pau ainda duro
envolto no lábio maior
saliva a realidade

a fumaça do cigarro desenha o futuro na estrada
planícies verdes e montanhas na janela
Andrômeda ainda espera a ejaculação
ao mesmo tempo que o norte espera a chuva
os deixem morrer, diz o sul
os deixem morrer...
todos os arianos racistas do sul
chamando negros de macacos em jogos de futebol
o último câncer do pós modernismo
metralhadoras na fronteira
cowboys da cocaína no blues
e ainda assim os pastores insistem em buscar salvação
quando não existe mais nada sob a Terra... 

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