sexta-feira, 15 de maio de 2015

As Cinzas de Guadalupe


                   Brasa de artelhos tortos
        mãos atadas
dedos presos ao calabouço
         navio negreiro
um antigo senhor de engenho
          ainda chibata
não mais homens deuses
           ébano em sangue
agora apenas a genética
           do medo & dor
aplicada aos que restaram
            mulheres errantes
aprisionadas pós proa
             tratadas como resto
                           como nada
antigo sinhô agora não
              latifundiário
herdeiro Bandeirante
              estupro
escravas brancas europeias pobres
               chão de terra
senzala latino americana
                arrumadeira amante sangue
                passadeira de brasa
                futura artrose
na casa grande de outrora
                esposa irmã
castigos velhos chapéu
                 o suor nas costas
                 chibata moderna
canaviais mucamas imigrantes
                 hierarquia
nascida na pré coluna social
                 jantares exclusivos
Guadalupe sua pele escarificada
mãos tortas do passado sórdido
                 empregada aprendiz
                                    do ódio branco...  

***


... De seu útero cinco filhos
um homem morto
     Casada em genética patriarcal
a chibata atrás da porta
     Caixeiro viajante nos bares
personificação da bondade
     Núpcias onde jamais se via a pele
nua...
     O bar onde o cartesiano desaparecia
seu Reino em casa
     Guadalupe & As Sobras
que lhe proveram a carapaça
      Lhe deixaram apenas o machismo
dentro de um litro de bebida     
      Velha amiga curandeira
embebia fraldas e aniquilava germes
      O fim débil que ainda longe
acenava...
      Como a Terra dentro do navio
a foice que usava no canavial
      Vestimentas de prostituta particular
a pele escarificada como A Cristo de vagina
       Guadalupe & As Sobras de uma vida
a violência misógina passada como luz
        Salvação do destino sujo
casamentos baseados me falta de escolaridade
        Religião cega... Terços imagens
vil massacre encefálico
        Faringe muda do gritar sem eco
perdida na evolução do mundo
        Jamais ensinada como seguir em frente
sempre uma mulher nascida para ser NADA...
        Filhas em série abortadas da liberdade
cornucópia em simulacro
        Aristocracia o estupro filosófico social rabo adentro
pelo patrão e marido provedores
        Traço meritocrático da Guerra
pelo melhor dos descendentes
        Pobres descendentes... Joguetes
do sêmen de um fazendeiro usado com arma
as normas religiosas de uma sociedade de bem...
***


... se pudesse lhe salvaria
Uma máquina do tempo
    
    levaria tua alma embora
Mostrador de quilombo moderno

  tornaria sua morte menos dolorosa
Aquele esquecimento

   sempre uma forma
D’alma apagar tudo que viveste

    então essa dor de não querer
Viver na forca essa maldita vida

    torna o ar em lágrimas
O resto em afasia do corpo

... se pudesse lhe salvaria
Antes mesmo de saber quem era

     mas é tarde e já és morta
Vivo então de rancor autodidata

      pois assim a raiva me dói menos
Ao saber como fostes tratada

      tu que tolhias vontades
Tu que cozias polentas em ranço
      
      tu que trocavas fraldas como um diabo
Tu que socavas rostos com demoníaca força

... se pudesse lhe salvaria
Do machismo e da misoginia

    que passastes como meritocracia
Para todas as suas filhas

     que fizeram delas patriarcais madres
De racismo rancor & superficial estamparia.

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